27 junho 2017

Caro nome

A brincar. Ária Gualtier Maldè!... Caro nome, da ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi (1813–1901), numa paródia protagonizada pela cantora soprano coloratura norte-americana Marilyn Mulvey e o pianista e comediante dinamarquês Victor Borge (1909–2000)


A sério. Ária Gualtier Maldè!... Caro nome, da ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi (1813–1901), numa interpretação da cantora soprano coloratura australiana Joan Sutherland (1926–2010) e a Orquestra do Covent Garden, de Londres, dirigida por Francesco Molinari-Pradelli (1911–1996)

24 junho 2017

São João Batista no Deserto


São João Batista no Deserto, c. 1515, óleo sobre madeira de um pintor anónimo habitualmente designado Mestre da Lourinhã. Santa Casa da Misericórdia da Lourinhã

20 junho 2017


Porque tudo já
foi dito, destravo a língua
no vazio, aos gritos!

Sétimo e último haicai de Sete Haicais — um Poema, de Carlos Saldanha Legendre, poeta brasileiro


Imagem do terrível incêndio iniciado na noite de sábado, 17 de junho de 2017, em Pedrógão Grande, que causou dezenas de mortos e dezenas de feridos (Foto: Lusa)

16 junho 2017

Castelo Novo, Fundão

(Foto: sacavem)

— Mas que raio! Toda a gente que vem a Castelo Novo me pergunta pela lagariça! Aquilo não tem nada que ver!

Assim exclamou um habitante da vila histórica de Castelo Novo, no concelho do Fundão, quando lhe perguntei onde ficava a lagariça. Enfim, a lagariça pode não ter (quase) nada que ver, mas Castelo Novo tem que ver — e muito —, incluindo a lagariça.

Comecemos pela localização. Aninhada num recôncavo da serra da Gardunha, Castelo Novo apresenta-se-nos como uma acolhedora cascata de casas e outras construções, sobre um fundo constituído por fraguedos da serra, de belíssimo efeito cenográfico. A primeira impressão que Castelo Novo transmite ao visitante não podia ser melhor.


A Torre Sineira, Casa da Câmara, antiga Cadeia, Chafariz de D. João V e Pelourinho (Foto: Aldeias Históricas de Portugal)

A seguir, os monumentos. Não faltam monumentos a merecer a nossa atenção em Castelo Novo. Desde logo, os que se podem ver na praça principal da vila. Vigiados pela torre de menagem do castelo em ruínas (o castelo já foi novo, já, mas isso foi há muitos séculos...), encontram-se a Torre Sineira, a Casa da Câmara (antigos paços do concelho), o Chafariz de D. João V, que lhe fica encostado, e um Pelourinho no meio da praça. Isto dito assim não diz nada, mas no entanto diz muito. Com efeito, encontram-se representados, só nesta praça, três séculos distintos: os séculos XIII, XVI e XVIII.

O castelo deve ser medieval. Foi no séc. XIII que Castelo Novo foi doado à Ordem dos Cavaleiros Templários e, portanto, a construção desta estrutura militar deve datar dessa época, se não for anterior. A Casa da Câmara, incluindo a antiga cadeia, e o Pelourinho datam do reinado de D. Manuel I, que foi quem atribuiu carta de foral à vila. A Torre Sineira data da mesma época. O Chafariz é barroco e data do reinado de D. João V.

Ao contrário do que seria de esperar, a conjugação num espaço tão pequeno de três estilos diferentes e até contrastantes (medieval, manuelino e barroco) produziu um resultado surpreendentemente harmonioso. Aquela pequena praça de Castelo Novo é um exemplo de que é possível combinar estilos diferentes sem agredir a sensibilidade estética de ninguém. Aquela pequena praça de Castelo Novo é uma lição a todos quantos, nos nossos dias, fazem "restauros", "reabilitações" e outros enxertos "a martelo", transformando construções antigas, que eram lindas ou apenas interessantes, em horrorosos mamarrachos. Esses senhores que não sabem combinar estilos diferentes, nem sabem pôr o antigo a dialogar com o moderno, que tratem de ir a Castelo Novo aprender como é que os antigos faziam.


Casa da Família Falcão (Foto: Aldeias Históricas de Portugal)

Depois de se ter admirado a praça principal de Castelo Novo, é altamente recomendável que se dê uma volta pela vila e se admirem as interessantíssimas casas e outras edificações que se encontram a cada passo que se dá. Não é por acaso que Castelo Novo é uma vila histórica. Visite-se, também, a igreja matriz, a da Misericórdia e outros templos que em Castelo Novo existem. Há muito que ver em Castelo Novo e também há muito que beber... mas é água.

Eu se calhar não devia fazer publicidade à água que junto a Castelo Novo se recolhe e se engarrafa, mas ela é tão saborosa que não resisto. Eu não conheço outra água de mesa que seja tão leve e tão fresca como a Água do Alardo. Pronto, está feita a publicidade gratuita.

Então, e a lagariça, de que falei no início? Afinal ela tem ou não tem algo que ver? Tem. A lagariça é um lagar de vinho escavado no granito a céu aberto e situado no meio da povoação. Data do século VII ou do VIII. Além de atestar a antiguidade da ocupação humana no local, a lagariça é um dos testemunhos materiais mais antigos existentes em Portugal da produção de vinho.

Foram os romanos que introduziram, no território que é hoje Portugal, o cultivo da vinha e a produção de vinho a partir da fermentação do mosto. Os habitantes do atual território português anteriores à chegada dos romanos (brácaros, lusitanos, cónios e outras tribos celtas), não conheciam o vinho. Fabricavam cerveja através da fermentação da cevada. A vinha é uma planta mediterrânica, mas a civilização celta era originária da Europa central e não do Mediterrâneo. Por isso, as tribos que aqui habitavam produziam cerveja e não vinho. Se, nos nossos dias, Portugal é um produtor de excelentes vinhos, aos romanos o deve.


A lagariça de Castelo Novo, constituída por duas pias situadas a níveis diferentes. Uma pia maior, situada a um nível superior, onde se pisavam as uvas. Através de um orifício, o mosto resultante da pisa das uvas escorria para uma pia mais pequena, de formato mais ou menos retangular, que se encontra a um nível mais baixo (Foto: Fernando Paulouro das Neves)

13 junho 2017

Partida

Partida, por Cesária Évora

10 junho 2017

Portugal

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater
os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava
os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira
Que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
E o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto
Quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera
um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos
a ver se contraía a febre do império
mas a única coisa que consegui apanhar
foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito
e idiota como tu
mas que tem o coração doce, ainda mais doce
que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros
para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete
Salazar estava no poder
nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram
nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre
nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho
Que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge de Sousa Braga, poeta português



05 junho 2017

Que mundo queremos construir?

Pajerama, uma curta-metragem brasileira de 2007, com animação de Leonardo Cadaval e Sérgio Minehira, música de Ruggero Ruschioni e realização de Leonardo Cadaval. Este é um filme de animação feita em computador, que retrata o choque de culturas entre a vida na floresta e a do mundo industrializado. O título Pajerama evoca as visões tidas por um pajé, isto é, por um xamã índio

01 junho 2017

Brincando com minas terrestres

Diante de uma parede esburacada pela metralha, crianças de Angola brincam com uma bicicleta cujas rodas são minas terrestres desativadas. Esta fotografia é do tempo da guerra civil angolana ou pouco posterior (Foto: Ricardo Beliel)

29 maio 2017

Fonte da Vila, Castelo de Vide




A Fonte da Vila é o ex-libris de Castelo de Vide e está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1953. Acerca deste fontanário, lê-se na página respetiva da Direção-Geral do Património Cultural:

A Fonte da Vila situa-se sensivelmente ao centro do Largo Dr. José Frederico Laranjo, e constituiu o ponto gerador do sistema urbano radial (em blocos triangulares e em concha) que se observa nas cinco ruas em seu redor; uma das quais aberta na íngreme encosta do castelo onde se situava a Judiaria, nos séculos XIV e XV.

Este caminho, que ligava o Castelo à Fonte da Vila, ou à respectiva nascente que nessa época já era conhecida, foi crescendo progressivamente, ficando ladeado de casas " (...) que acabariam por formar a rua que dela tira o nome" (TRINDADE, Diamantino, 1979, p.80). Rua essa cujo prolongamento termina numa das saídas da Vila, o que leva a Dra. Carmen Balesteros a afirmar que " (...) no Largo funcionou outra estrutura de fecho (da Judiaria) que pode ter incluído no bairro a própria Fonte (...) " (BALESTEROS, OLIVEIRA, 1995, p. 105).

A edificação da Fonte da Vila, como a conhecemos hoje, deverá remontar ao reinado de D. João III. Ainda que no início do século XX haja memória da existência na Fonte de esferas armilares, entretanto desaparecidas (VIDEIRA, César, 1908, p.53), os elementos decorativos aproximam-se da linguagem de pendor classicista difundida no reinado de D. João III.

Por outro lado, a Fonte da Vila é um exemplo reconhecido de micro-arquitectura experimental que, no decorrer das primeira metade do século XVI, contribuiu para a difusão das regras da proporção e simetria e, em última análise, do classicismo.

De forma rectangular, a Fonte apresenta cobertura piramidal, sustentada por seis colunas de mármore. Ao centro do tanque ergue-se um bloco circular de secção elíptica, de onde saem as quatro bicas. É encimado por base de coluna com baixos relevos, rematada por florão em forma de pinha.

A base da coluna apresenta, em duas faces opostas e esculpidas em baixo-relevo, uma figura em genuflexão com os braços abertos, cujos dedos das mãos passam para as outras faces, parecendo segurar os brasões aí representados: um escudo com as armas do concelho (castelo acompanhado por três ramos de videira entrelaçados e três folhas no franco-cantão, cantão e ponta; e em contra-chefe castelo diminuto); e um escudo do mesmo género, com as "Armas de Portugal" mas com as cinco quinas em aspa e bordadura carregada de sete castelos.

Deste monumento faz ainda parte um bebedouro, e um muro que envolve a Fonte e a delimita, acentuando e suportando os vários desníveis do pavimento.


(Foto: Fonte da Vila)

25 maio 2017

Regresso a África



Why I sing the Blues, por BB King (1925–2015), ao vivo em 1974, em Kinshasa, República do Zaire, atual República Democrática do Congo


O blues é um género musical nascido no sul dos Estados Unidos, fruto da fusão de diversos tipos de música, levados para o continente americano pelos escravos capturados em várias partes de África.

Em anos recentes, o blues tem sido associado à música do Sahel e do deserto do Sahara, graças à popularidade conseguida pelo falecido músico maliano Ali Farka Touré e outros. Apesar das semelhanças que possa ter com a música das regiões desérticas e semidesérticas do Sahara e do Sahel, na realidade o blues tem as suas raízes em toda a África e não só nas regiões referidas.

Milhares e milhares de escravos foram levados do Congo para a América ao longo de vários séculos. Não admira por isso que o concerto que BB King deu em 1974 na cidade de Kinshasa tenha sido, de certa forma, um regresso às origens da música afro-americana como um todo, do blues em particular e de BB King pessoalmente.

À data em que ocorreu este concerto de BB King em Kinshasa, perante uma multidão de 80 000 pessoas, eu encontrava-me em Portugal, mas três meses antes eu estava a cerca de 200 quilómetros do local onde ele se realizou. De qualquer modo, não poderia nunca assistir ao espetáculo.

22 maio 2017

Poema à mãe

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal…

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade (1923–2005)


19 maio 2017

Parigi, o cara


Parigi, o cara, dueto do último ato da ópera La Traviatta, de Guiseppe Verdi (1813–1901), pelo tenor angolano Emanuel Mendes e a soprano cubana Yilam Sartorio, do Teatro Lírico Nacional de Cuba


Emanuel Mendes é um cantor de ópera angolano, que tem a voz de tenor e se formou em canto lírico em Cuba. Tem vindo a fazer uma carreira promissora, atuando em vários países e ganhando diversos prémios. Ultimamente tem estado em residência artística em Oldenburg, Alemanha.

Neste dueto, intitulado "Parigi, o cara", Emanuel Mendes contracena com a cubana Yilam Sartorio, no úlitmo ato da ópera La Traviatta, de Verdi, quando Violetta e Alfredo se encontram depois de uma longa separação. Este é um dueto que requer uma contida emoção, sem excessivos arroubos.

12 maio 2017

Crianças indígenas do Brasil


«O melhor do mundo são as crianças», escreveu Fernando Pessoa no seu famoso poema "Liberdade". Serão poucos, por certo, os que porão em dúvida esta afirmação do grande poeta. Com a sua pureza, a sua frescura e a sua ingenuidade, as crianças são, de facto, o melhor do mundo, qualquer que seja a sua cor, origem geográfica, etnia, etc.

Encontram-se aqui reunidas várias imagens de crianças índias brasileiras, que eu recolhi aqui e ali por essa internet fora. São imagens de curumins (meninos) e cunhatãs (meninas), pertencentes a diversas etnias indígenas do Brasil: Kamayurá, Pataxó, Ashaninka, Yanomami, Mebengokre, Arawetê, etc. São imagens de crianças que merecem ter um futuro radioso e em paz, como todas as crianças do mundo. Assim os adultos o permitam.


(Foto de autor desconhecido)

(Foto: Ipojucan Ludwig)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto: Maria Rachel C. Pereira)

(Foto: Ruriana Alves Brás)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto: D' Jerá Sirlene)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto: Instituto Socioambiental)

(Foto de autor desconhecido)

06 maio 2017

A lenda da Ponte da Misarela


(Foto: mariofch)

A Ponte da Misarela, sobre o Rio Rabagão, que é afluente do Cávado, é uma ponte medieval que une a freguesia de Ruivães, concelho de Vieira do Minho, distrito de Braga, à freguesia de Ferral, concelho de Montalegre, distrito de Vila Real. Esta ponte une, portanto, o Minho a Trás-os-Montes. Em resultado da sua forma e da sua localização, esta ponte é objeto de uma lenda, a respeito da qual correm várias versões, que a associam ao diabo. Seguem-se quatro versões da lenda da Ponte da Misarela ou Ponte do Diabo.


(Foto: pegadas)

PRIMEIRA VERSÃO
Conta-se que há muitos anos, entre duas aldeias, Frades e Vila Nova, os moradores sentiam a necessidade de construir uma ponte, que serviria de passagem não só para eles mas também para os seus animais.

Após terminar, regressaram satisfeitos às suas casas. No dia seguinte, qual não foi o espanto, quando viram a ponte derrubada. Mas isto não foi motivo para desistirem e logo a reconstruíram novamente. Desta vez, enquanto a construíam, a ponte começou a estalar, a estalar, até que acabou por cair. Então as pessoas disseram umas para as outras:

— Isto só pode ser artimanha do diabo.

E de repente ouviram uma voz alta dizer:

— Nunca conseguireis segurá-la em pé.

Aflitos, correram a contar ao padre da freguesia o que ali se tinha passado. O padre, surpreendido e num tom animador, disse:

— Homens, voltai a reconstruí-la, porque desta vez não vai cair.

Pela trigésima vez, a ponte iria ser reconstruída, mas desta vez o padre acompanhou-os, levando um pão benzido debaixo do capote. Quando foi colocada a última pedra, a ponte começou a torcer-se, dando sinais de que iria cair. Então o padre lançou o pão a rebolar pela ponte e disse:

— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

O diabo, ao ouvir as palavras de Deus, fugiu e a ponte ficou sempre torta como se tivesse o ombro do diabo marcado quando estava a empurrá-la.

Não só aconteceu o milagre do pão como também desde esse dia outro milagre aconteceu: que é o de salvar os filhos das mães que tanto os desejavam e que nunca conseguiram dar-lhes vida, pois estes nasciam mortos após os seis ou sete meses de gravidez.

Uma mulher que já tivesse passado pela situação descrita e estivesse novamente grávida, deveria ir até à ponte da Misarela levando consigo dois acompanhantes e deveriam à meia-noite em ponto estar em cima do arco da ponte. Os acompanhantes teriam de se colocar um em cada entrada da ponte para impedirem que nenhum animal passasse, ainda que fosse um rato, pois se assim fosse o milagre não se realizava.

A mulher grávida e os acompanhantes teriam de esperar em cima da ponte até que alguém passasse para baptizar a criança ainda dentro da barriga da mãe. Para o baptizado, levavam um jarro e uma corda comprida e, quando aparecesse a primeira pessoa, pediam-lhe para ser o padrinho ou madrinha da criança.

Então o padrinho ou a madrinha teriam de cortar ao lado da ponte um ramo de oliveira. De seguida lançava o jarro preso na corda abaixo da ponte e com a água que conseguisse colher molhava o ramo e fazia uma cruz na barriga da mãe dizendo:

Eu te baptizo
em nome do Pai,
do Filho,
e do Espírito Santo.

Se fores rapaz,
teu nome será Gervás;
e se fores rapariga,
teu nome será Senhorinha.

Pelo poder de Deus
e da Virgem Maria,
um pai-nosso
e uma avé-maria.

Após o baptizado, regressavam a casa e dali a nove meses o bebé nascia com saúde. E não só nascia o primeiro filho como também outros que o casal desejasse sem necessidade de um tratamento hospitalar.

(Esta lenda é um testemunho vivo de um caso que se passou na minha família. A minha tia, Ana Barqueiro Pereira, não conseguia ter filhos e, deixando-se levar pela crença na ponte da Misarela, actualmente tem uma filha chamada Senhorinha e mais quatro filhos.)

Biblio AA. VV., — Literatura Portuguesa de Tradição Oral, s/l, Projecto Vercial — Univ. Trás-os-Montes e Alto Douro, 2003, p.L7


(Foto: mariofch)

SEGUNDA VERSÃO
Certo dia, um ladrão, fugindo de um par de guardas, deparou-se com um rio que não podia de forma nenhuma atravessar. É então que lhe aparece o diabo e lhe propõe um negócio:

— Farei surgir uma ponte sobre este rio que desaparecerá à tua passagem, contanto que me dês a tua alma.

O ladrão, olhando para trás com receio de que os guardas se aproximassem, viu ali uma solução para o seu problema e por isso aceitou de imediato.

— Acordo feito.

— Sempre que precisares, é só chamar pelo meu nome, que eu logo te acudirei — disse o diabo.

Fez então surgir a ponte, permitindo que o ladrão escapasse e fazendo-a logo a seguir evaporar-se no ar.

Mas a consciência do ladrão começou a pesar-lhe por ter dado assim de mão beijada a alma ao diabo e decidiu procurar um padre a quem contou tudo e a quem pediu ajuda. Combinaram ambos uma solução: o padre iria com ele até ao local da ponte e esconder-se-ia no momento em que o ladrão chamasse pelo diabo. E assim aconteceu.

O ladrão chamou pelo diabo e este voltou a fazer aparecer a ponte. Nesse momento, o padre lançou água benta sobre ela e sobre o ladrão, afugentando o diabo e abençoando a ponte para sempre, que ali ficou.

Conta-se que um dia, uma pobre mulher que entrara em trabalho de parto se foi abrigar debaixo da ponte para ter a criança e que, a dada altura, ouviu uma voz que lhe dizia que aquela criança seria abençoada e que, se nascesse menino, lhe teria de dar o nome de Gervásio e, se fosse menina, o nome de Senhorinha. O caso espalhou-se e muitas mulheres passaram a procurar o local para terem os filhos para que estes também nascessem abençoados.

Conta-se que naquela zona existem vários Gervásios e várias Senhorinhas, que fazem crer que uma lenda pode ser uma lenda, mas que pode ter algo de real e que o real e o imaginário muitas vezes se cruzam e fazem parte de um mundo que continua por descortinar.

Biblio AA. VV., — Literatura Portuguesa de Tradição Oral s/l, Projecto Vercial — Univ. Trás-os-Montes e Alto Douro, 2003, p.L8


(Foto: António Alves Chaves)

TERCEIRA VERSÃO
Diz-se que um padre, querendo fazer uma pirraça ao Diabo, se disfarçou em salteador perseguido pelas justiças de Montalegre, e foi certo dia, à meia-noite, àquele lugar para passar o rio. Como o não pudesse passar, por meio de esconjuros, invocou o auxílio do Inimigo. Ouve-se um rumor subterrâneo e eis que aparece, afável e chamejante, o anjo rebelde:

— Que queres de mim? — perguntou ele.

— Passa-me para o outro lado e dar-te-ei a minha alma.

Santanás, que antegozava já a perdição do sacerdote, estendeu-lhe um pedaço de pergaminho garatujado e uma pena molhada em saliva negra, dizendo:

— Assina!

O padre assinou. O Demo fez um gesto cabalístico e uma ponte saiu do seio horrendo das trevas.

O clérigo passa e, enquanto o diabo esfrega um olho, saca da caldeirinha da água benta, que escondera debaixo da capa de burel, e esparge com ela a infernal alvenaria, fazendo o sinal da cruz e pronunciando bem vincadas as palavras do exorcismo.

Santanás, logrado, deu um berro bestial e desapareceu num boqueirão aberto na rocha, por onde sairam línguas de fogo, estrondos vulcânicos e fumos pestilenciais. O vulgo das redondezas, na sua ignorância e ingenuidade, e não sabemos a origem, aproveita-se da ponte para ali exercer um rito singular.

Quando uma mulher, decorridos que sejam dezoito meses após o seu enlace matrimonial, não houver concebido, ou, quando pejada, se prevê um parto difícil ou perigoso, não tem mais que ir à Mizarela, à noite, para obter um feliz sucesso. Ali, com o marido e outros familiares, espera que passe o primeiro viandante. Este é então convidado para proceder à cerimónia, a qual consiste no baptismo in ventris do novo ou futuro ser. Para isso, o caminhante colhe, por meio de uma comprida corda com um vaso adaptado a uma das extremidades, um pouco de água do rio e com a mão em concha deita-a no ventre da paciente por um pequeno rasgão aberto no vestuário para este efeito, acompanhando a oração com a seguinte ladaínha:

Eu te baptizo
criatura de Deus,
Pelo poder de Deus,
e da Virgem Maria.

Se for rapaz, será ‘Gervás’;
se for rapariga, será Senhorinha.
Pelo poder de Deus e da Virgem Maria,
um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.

O barulhar iracundo da cachoeira no abismo imprime a estas cenas um cunho de tétrica magia. Segue-se depois uma lauta ceia, assistindo, geralmente, o improvisado padrinho. E o êxito é completo: um neófito virá alegrar a família. Claro que se na primeira noite não passar o viandante desejado, a viagem à Mizarela repetir-se-á até o cerimonial se realizar nas condições devidas.

De um dos lados ergue-se um enorme rochedo que o povo denominou "Púlpito do Diabo", por crer que o Demo vai ali pregar à meia-noite, quando as bruxas das redondezas se reunem em magno concílio…

Mário Moutinho e A. Sousa e Silva, O mutilado de Ruivães, in Serra do Gerês


(Foto: Carlos Rocha)

QUARTA VERSÃO

Um salteador das terras d'além Douro perseguido pela justiça embrenhou-se pelas serras de Traz-os-Montes, mas chegou á beira de uma torrente caudal e não pode passar. Para fugir offereceu a alma ao Diabo, e logo ali appareceu uma ponte, que se desfez logo que elle passou. Na hora da morte o salteador confessou-se, e o padre disfarçando-se em salteador chamou o Diabo, fez-lhe a mesma proposta, a ponte appareceu, e metteu-se por ella. Quando já estava no meio da ponte faz o signal da cruz, bota-lhe agua benta, e a ponte ficou firme até hoje. É de um só arco.

J. A. d'Almeida, Dicc. Chorographico, in Teófilo Braga, Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

30 abril 2017

Paz

Paix, por Catherine Ribeiro, cantora francesa de origem portuguesa, e o grupo Alpes, liderado por Patrice Moullet

25 abril 2017

Trovas do Mês de Abril

Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
Na esperança de um só dia.

Foram batalhas perdidas. Foram derrotas vitórias.
Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias)
Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida)
Por um só dia vivida.

Foi o tempo que passava como nunca se passasse.
E uma flauta que cantava como se a noite rasgasse
Toda a vida e uma palavra: liberdade que vivia
Na esperança de um só dia.

Musa minha vem dizer o que nunca então disse
Esse morrer de viver por um dia em que se visse
um só dia e então morrer. Musa minha que tecias
um só dia dos teus dias.

Vem dizer o puro exemplo dos que nunca se cansaram
musa minha onde contemplo os dias que se passaram
sem nunca passar o tempo. Nesse tempo em que daria
a vida por um só dia.

Já muitas águas correram já muitos rios secaram
batalhas que se perderam batalhas que se ganharam.
Só os dias morreram em que era tão curta a vida
Por um só dia vivida.

E as quatros estações rolaram com seus ritmos e seus ritos.
Ventos do Norte levaram festas jogos brincos ditos.
E as chamas não se apagaram. Que na ideia a lenha ardia
Toda a vida por um dia.

Fogos-fátuos cinza fria. Musa minha que cantavas
A canção que se vestia com bandeiras nas palavras:
Armas que o tempo tecia. Minha vida toda a vida
Por um só dia vivida.

Manuel Alegre


O capitão Salgueiro Maia no Largo do Carmo, em Lisboa, no dia 25 de abril de 1974 (Foto: Alfredo Cunha)

24 abril 2017

Acabamos sempre por esquecer tudo

Acabamos sempre por esquecer tudo.

O tempo gera a traição do abandono
e a memória não passa de disfarce.

O que fomos
o que vimos
o que fizemos
o que nos fizeram,
esquecemos tudo.

Acabamos sempre por esquecer tudo.

Esvaiem-se os anos e os corpos
na escuridão que nos persegue.
Mantemos os olhos maquinalmente abertos
mas já nada vemos
do que passou
do que foi.
Já nada persiste.

Restam, talvez, algumas sombras disformes
um ou outro eco mecânico
palavras despidas
o sonho
o pesadelo
um nevoeiro acre e sem fundo…

Esquecemos tudo
nas oportunistas mãos do vácuo,
irmão incestuoso da morte.

Como foi possível esquecer-te, João Cabral?
E tu, Miguel,
e tu, Lourenço,
e tu, povo angolano,
e tu, soldado da minha guerra?!

Os vermes parasitam nossas recordações
cantando hinos de decomposição.

Onde estão o medo, os soluços, o desespero, a raiva?!
Onde estão os mortos, os vivos, as vítimas, os algozes?!

Quase não acredito no que já esqueci.

Mário Brochado Coelho, in Cinco Passos ao Sol, Edições Afrontamento, Porto.


Militares portugueses destacados para a Guerra Colonial, algures no norte de Angola, 1963 (Foto: A. Leitão)

19 abril 2017

Sabedoria indígena brasileira

Palavras de Ailton Krenak, índio da tribo Krenak, do estado de Minas Gerais, um dos mais respeitados líderes indígenas do Brasil

16 abril 2017

Cristo ressuscitado

Cristo Ressuscitado, parte do grupo escultórico de mármore "Ressurreição", do escultor francês Germain Pilon (c. 1528 – 1590), Museu do Louvre, Paris

15 abril 2017

Ya murió mi redentor

Ya murió mi redentor, de frei Vicente Ortiz de Zárate (1750–1791), compositor barroco do México, por Carol Ann Allred, soprano, e o quarteto Chatham Baroque