23 fevereiro 2018

31 anos após a morte de Zeca Afonso, a sua música continua viva


Canto Moço, por José Afonso (1929–1987)

21 fevereiro 2018

Água que não molha


A Onda, de William Bouguerau (1825–1905), óleo sobre tela de 1896. Coleção privada

William Bouguereau foi um pintor francês que gozou de grande fama no seu tempo. Tendo caído no esquecimento durante quase todo o séc. XX, tido como um artista puramente académico, Bouguerau é de novo valorizado na atualidade e as suas obras são de novo apreciadas.

William Bouguerau (de seu nome completo William-Adolphe Bouguerau) foi, sobretudo, um pintor de mulheres. O nu feminino desempenhou um papel de particular relevo na sua obra, em que as mulheres são frequentemente representadas à beira-mar. A tela que aqui se mostra é um dos seus melhores quadros deste tipo.

Um aspeto muito curioso deste quadro é o facto de a mulher representada se mostrar completamente seca, apesar de estar numa proximidade das ondas tal que se esperaria que estivesse completamente molhada. Mesmo as partes do seu corpo que assentam na água se apresentam secas, como se a água fosse sólida e não líquida.

Eu não sei em que condições Bouguerau pintou este quadro, mas tudo indica que ele pintou, primeiro, o mar rebentando numa praia, sem mulher nenhuma, e a seguir pintou a mulher por cima, perante um modelo posando no seu próprio estúdio, num ambiente fechado e talvez aquecido. Mesmo assim, Bouguereau poderia tentar mostrar a mulher molhada, pintando gotas de água a fingir que escorrem pelo seu corpo, mas preferiu representá-la tal como ele a viu: enxuta.

16 fevereiro 2018

Isto é um átomo


No centro da imagem, um pontinho quase invisível é um átomo de estrôncio (Foto: David Nadlinger, Universidade de Oxford, Inglaterra)

Os átomos são os mais pequenos constituintes da matéria em que é possível observarmos as propriedades dos elementos químicos. Se dividirmos um átomo nos seus próprios constituintes, deixaremos de ter um elemento, para passarmos a ter, apenas, protões, neutrões (se os houver) e eletrões.

Os átomos têm dimensões incrivelmente pequenas. Um átomo de estrôncio tem um raio calculado em 219 picómetros, ou seja, 0,000 000 219 milímetros! Apesar destas ínfimas dimensões, já é possível vermos átomos individuais recorrendo aos mais avançados microscópios eletrónicos. Até já é possível movimentar átomos, um a um, de um lugar para outro! Os átomos aparecem nos microscópios eletrónicos como pequeninos círculos de aspeto difuso. As nuvens de eletrões que orbitam em torno do núcleo dos átomos (composto pelos protões e neutrões) não nos permitem ter uma visão nítida deles.

Tendo os átomos tão reduzidas dimensões, somos levados a concluir que nunca os poderemos ver a olho nu. Ou será que podemos?

Podemos, sim, senhores. Basta isolarmos um átomo e fazê-lo brilhar. Foi o que fez o cientista David Nadlinger, da Universidade de Oxford, que manteve um átomo de estrôncio isolado e imóvel, preso dentro de uma câmara estanque na qual foi produzido um vácuo extremamente elevado. O átomo foi mantido firme dentro da câmara por meio de campos eletromagnéticos, produzidos por dois elétrodos metálicos com pontas em forma de agulhas. Sobre o átomo assim isolado e imóvel, Nadlinger fez incidir um laser de radiação ultravioleta, com uma frequência tal que o átomo, excitado pelo laser, emitiu de volta radição visível. Foi então possível observar o átomo à vista desarmada e fotografá-lo. Não é inequivocamente afirmado que o átomo tenha sido observado à vista desarmada, mas talvez seja possível observá-lo num quarto mergulhado em completa escuridão, como um pontinho luminoso muito ténue. A imagem obtida ganhou o primeiro prémio de um concurso de fotografia científica organizado pelo Engineering and Physical Sciences Research Council (EPSRC).


A fotografia vencedora completa, mostrando o dispositivo que permitiu a visão de um átomo de estrôncio, no centro (Foto: David Nadlinger, Universidade de Oxford, Inglaterra)

13 fevereiro 2018

Os caretos de Lazarim



As comunidades rurais possuem um conjunto de saberes e de práticas que pretendem preservar e transmitir às gerações futuras, como património cultural e identitário. A vila de Lazarim, no concelho de Lamego, Norte de Portugal, encontrou no Carnaval um tempo de excepção para afirmar a sua identidade cultural, recuperando os ritos, os símbolos e os textos associados às festas de Inverno. A partir de 1985 as práticas carnavalescas foram institucionalizadas, num modelo performativo que procura mostrar a tradição local ao mundo global. (…)

O Carnaval constitui um sistema simbólico associado à transição do Inverno para a Primavera, do velho para o novo, da morte para a vida, do frio para o calor, da parte masculina para a parte feminina do universo, reunindo diversos significados que assinalam este ciclo na vida das comunidades rurais. Um ciclo de renovação cósmica e social, tempo de utopia e transgressão, onde tudo o que é socialmente marginalizado busca uma libertação catártica, vencendo simbolicamente a hierarquia, a ordem, a opressão, e o sagrado. (…)

Em Lazarim, três gerações de artesãos, com diferentes expressões artísticas, transfiguram um tronco de amieiro, árvore que nasce nas margens do rio Varosa, em figuras representativas da tradição local. Cada um destes homens regista simbolicamente nas suas máscaras, o seu universo cultural e o seu imaginário. (…)

Os Caretos de Lazarim exibem através das suas máscaras representações de figuras históricas como bispos, reis e romanos, de figuras místicas como bruxas e diabos, de figuras grotescas, e ainda figuras de animais, como o burro, a corsa, o mocho e o porco. (…)

Os Caretos completam a máscara com outros elementos de vestuário, como fatos confeccionados de palha, ou de barba de milho entrançado, capas vermelhas ou negras com debruados. Na mão, transportam quase sempre um objecto de uso agrícola, como uma enxada ou uma forquilha, havendo alguns que usam um cajado de nogueira, que nos remetem para o sistema simbólico do mundo rural. (…)


(…) O início do ritual é sinalizado pelo ribombar dos foguetes às três horas da tarde de terça-feira gorda. No Largo do Padrão começam a afluir os primeiros Caretos, lançando farinha e jactos de água sobre os forasteiros e os locais. Os forasteiros respondem com disparo de câmaras fotográficas, tentando registar tudo aquilo que foi anunciado como tradicional. No Largo da Casa do Povo, homens e mulheres preparam “ o banquete”, a confecção da feijoada, em grandes panelas de ferro, que no final do ritual será partilhada pelos visitantes e locais. Os homens carregam lenha, ateando o fogo, e as mulheres aprontam os ingredientes da feijoada, composta de feijão branco, enchidos, entrecosto e orelha de porco. No centro da Vila, outro grupo de mulheres prepara o caldo de farinha, composto de farinha de milho, couves e enchidos de porco, que têm a mesma finalidade, a de serem consumidos depois do ritual do testamento. Entretanto, soam as primeiras batidas dos bombos que ecoam no Largo do Padrão. O grupo de tocadores é constituído por quatro elementos, um par de bombos e um par de caixas que vão percorrendo as ruas de Lazarim, seguidos pelos Caretos, nas suas inocentes tropelias, e pelos representantes dos grupos das Comadres e dos Compadres. O cortejo vai até ao lugar de Valverde, onde o Sr. Hélio Fernandes, artesão dos bonecos carnavalescos, lhes entrega uma espécie de andor, com a mascote do grupo de género, um boneco, para o grupo das Comadres e uma boneca, para o grupo dos Compadres, feitos de papel colorido com uma instalação pirotécnica. (…)

O cortejo atravessa a vila, desde Valverde até ao Padrão, e os participantes concentram-se no Largo da antiga Casa do Povo. Os Caretos dançam ao som dos bombos e caixas, em volta da fogueira onde se cozinha a feijoada, enquanto os Compadres e as Comadres se concentram no cimo das escadas da Casa do Povo. (…)

O grupo das Comadres e dos Compadres são representados por duas raparigas e por dois rapazes, solteiros. Um representante de cada grupo será escolhido para leitor do testamento, e o outro, transporta a mascote; o boneco simbolizando o Compadre e a boneca simbolizando a Comadre. O significado atribuído à representação dos géneros, através da figura dos bonecos, é particularmente relevante, na medida em que as cores das suas roupas e adornos são de uma exuberância que contrasta com o vestuário comum dos membros da comunidade. (…)

A ordem que assinala o início do ritual é dada pelos bombos, organizando-se um novo cortejo até ao Largo do Padrão, onde serão lidos os testamentos da Comadre e do Compadre. Os Caretos seguem à frente, seguidos dos representantes dos grupos, e por fim os tocadores e os acompanhantes, população e forasteiros. (…)

No Largo do Padrão foi montado um palco improvisado, onde os Compadres e as Comadres tomam os seus lugares dando início à leitura dos testamentos. O texto do testamento é composto por três partes; a introdução, composta por quadras alusivas ao ciclo do Carnaval e pela identificação da(o) testamenteira(o); as “deixadas” ou quadras dedicadas a todos os rapazes e raparigas solteiras e o final, alusivo ao fim da Comadre e do Compadre, anunciando a morte e rebentamento pelo fogo.
Com a fome que trazeis
Passais a vida a ladrar
Comeis a burra inteirinha
Nem a rata vai escapar.

Para manter a tradição
E o Carnaval não findar
Vamos repartir a burra
Para a boca vos calar.
O final de cada verso é sempre sinalizado com o rufar dos bombos. O texto é sarcástico, jocoso e vernáculo, recorrendo ao uso de alguns palavrões e abordando sobretudo os defeitos de carácter e de comportamento, tendo como acentuação a vertente sexual. (…)

O texto dos Compadres acentua igualmente os defeitos de carácter e os comportamentos das raparigas, mas tem mais incidência nos aspectos da vida sexual, utilizando uma linguagem mais jocosa, recorrendo ao uso de palavrões e dando-lhe uma forma mais grotesca do que o das Comadres, mas essa construção verbal é construída conscientemente.
Como já estavam há espera
Está cá o fanfarrão
Para dar carninha a todas
E manter a tradição.

A todas vamos dar carne
Pois é isso que elas querem
Não importa de quem seja
Consolar-se elas preferem.
Os testamentos carnavalescos no uso de linguagem jocosa, nas injúrias e nos palavrões, que constituem as “deixadas”, remetem sempre para um paralelismo entre as características do beneficiário e o objecto de partilha. Para os nossos informantes o significado deste ritual é “mais um gladiar entre homens e mulheres”, elegendo como bem de partilha, o burro e a burra, num paralelismo masculino/feminino que acentua as relações sociais e simbólicas entre pares de opostos. A figura do animal parece adquirir um duplo significado: o de símbolo bíblico da humilhação e da docilidade e, a do corpo grotesco cómico decepado, quando valorizadas as partes sexuais, objecto de partilha.
É o Paulo já se vê,
Vai repartir a burrinha,
Fica com a melhor parte,
Essa será a ratinha.


A audiência, composta por pessoas de vários grupos etários, reage pelo riso ao desfilar dos versos, contrastando com a postura séria dos leitores. Os grupos de rapazes e raparigas vão partilhando entre si cumplicidades através da troca de olhares. Também é possível observar que o testamento dos Compadres provoca quase sempre mais gargalhadas na assistência que o das Comadres. (…) Após a leitura dos textos é organizado um cortejo, durante o qual a solenidade e contenção são assumidas pelos participantes que se dirigem para o sítio da Cruzinha, em Valverde, onde os bonecos serão consumidos pelo fogo. Os Caretos tomam a dianteira, seguidos dos Compadres e das Comadres. Os tocadores impõem uma batida lenta e compassada, como num cortejo fúnebre, seguidos pela população local e pelos forasteiros.

No lugar da Cruzinha, em Valverde, os bonecos armadilhados por efeitos pirotécnicos, vão rodopiando, produzindo ruído e chamas acompanhadas de sucessivas explosões e batidas dos tocadores, até ao estoiro final, provocando na assistência, sobretudo nas crianças, uma enorme alegria e algazarra que perduram na memória. (…)

Em Lazarim a imolação dos bonecos assinala o término do ritual da festa carnavalesca, seguindo-se-lhe o “banquete”, espaço de confraternização entre os membros da comunidade e os forasteiros, através da comensalidade. O rito de passagem está concluído, mas o processo de reinvenção da tradição inseriu novos elementos à festa, o concurso de máscaras. O concurso é organizado pela Casa do Povo para premiar e incentivar os artesãos de máscaras de madeira, e manter a continuidade e a tradição. Este é um dos momentos da festa em que a audiência é essencialmente composta pelos membros da comunidade, artesãos e seus familiares. O júri do concurso é constituído por pessoas convidadas, exteriores à comunidade. Os prémios atribuídos contemplam a melhor máscara no seu conjunto (fato e máscara), a melhor máscara de madeira, a primeira máscara, e prémios de participação, como incentivo e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido. Durante o concurso a maior parte dos visitantes dispersa-se pelos lugares onde são oferecidos os “banquetes”.

No Largo da Vila saboreia-se o caldo de farinha, e no Largo da Casa do Povo a feijoada. A história a que remete a origem do banquete comunitário celebra a abundância do grupo social, de tal forma que se permitem a convidar os vizinhos e os forasteiros para o seu banquete. (…) o Carnaval de Lazarim remete-nos para um contexto rural de formação cristã, e o seu ritual para uma pândega libertadora, onde rapazes e raparigas cumprem o seu papel de herdeiros de uma paródia burlesca. (…)

Dulce Simões, in Carnaval em Lazarim: Máscaras, Testamentos e Práticas Carnavalescas

10 fevereiro 2018

Rock



Champagne & Reefer, por Buddy Guy e The Rolling Stones



Hotel California, pelos Eagles



10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, a obra-prima de José Cid

07 fevereiro 2018

Algumas considerações a respeito do frio


(Foto de autor desconhecido)


As palavras que se seguem não são dirigidas a pessoas com a saúde debilitada, em razão de doença, idade avançada ou outra condição. As pessoas que se encontram nesta situação devem tomar todas as precauções possíveis para se resguardarem do frio e das suas consequências.


O explorador norueguês Roald Amundsen (1872–1928) dirigiu a primeira expedição que conseguiu atingir o Polo Sul, em dezembro de 1911. A mesma sorte não teve o explorador britânico Robert Scott (1868–1912), que morreu vítima do frio extremo. Perguntaram uma vez a Amundsen a razão do seu êxito. Amundsen respondeu que ele se deveu ao facto de que desde pequeno se tinha habituado ao frio, dormindo sempre com a janela aberta, mesmo no auge do mais rigoroso inverno norueguês.

Quem mora numa cidade nem sempre terá a possibilidade de dormir com a janela aberta. Aclaridade da iluminação pública, o ruído do trânsito ou a oposição manifestada pelo nosso companheiro ou companheira de cama (se houver) impedem tal propósito. Mas existem outros meios para nos adaptarmos um pouco mais ao frio do inverno, que este ano está a ser mais rigoroso do que os anteriores.

Quando eu era uma criança pequena, a minha mãe (como todas as mães) obrigava-me a vestir roupa em cima de roupa no inverno, quase até sufocar… O que mais me custava vestir eram as grossas camisolas interiores e as grossas calças de fazenda, que me picavam a pele como se fossem forradas a escova de arame. Como a minha família não nadava em dinheiro, a roupa que a minha mãe me comprava era tão barata quanto possível. As camisolas interiores e as calças de fazenda eram, por isso, extremamente ásperas. Eram verdadeiros instrumentos de tortura.

Uma vez, quando eu tinha cerca de sete anos, revoltei-me. Numa manhã fria de inverno, enquanto me preparava para ir para a escola, a minha mãe, como sempre fizera, vestiu-me uma áspera camisola interior. Despi-a imediatamente a seguir e vesti a camisa por cima da pele nua. Apesar do arrepio que então me percorreu as costas, porque a camisa me pareceu gelada, senti uma extraordinária sensação de alívio, porque a camisa era fina e suave, em contraste com a aspereza da camisola interior. Para meu enorme espanto, a minha mãe não só não me ralhou, como dobrou e voltou a arrumar a camisola na gaveta, enquanto eu vestia o resto da roupa. Fui para a escola sem camisola interior, aliviadíssimo por não trazer a "escova de arame" vestida. E nunca mais usei camisolas interiores até hoje, sejam elas ásperas ou suaves, a não ser quando estou engripado.

Como a minha mãe tinha aceitado a minha recusa em usar camisola interior, tive logo a seguir um segundo ato de rebeldia. Em vez de vestir as grossas e ásperas calças de fazenda que a minha mãe queria que eu vestisse, vesti uns finos calções de verão e fui para a escola de calções. Mais uma vez a minha mãe não reagiu e não me ralhou. Passei então a andar sempre de calções, 365 dias por ano, mesmo nas mais frias manhãs de geada, até ter cerca de 15 anos de idade. Só aos 15 anos, com efeito, é que voltei a usar calças compridas, que eram macias porque era eu que as escolhia…

Em criança, portanto, habituei-me a andar com pouca roupa e de pernas ao léu. E não adoeci mais por causa disso. A única doença que eu apanhava era gripe. De resto, nunca tive nenhuma das outras doenças que todas as crianças do meu tempo apanhavam. Apesar de eu conviver e brincar com elas todos os dias, nunca apanhei sarampo, nem varicela, nem papeira, nem escarlatina, nem nenhuma outra doença infecciosa que não fosse gripe. Será que o facto de eu andar com pouca roupa contribuiu para reforçar as minhas defesas naturais?

Ainda hoje sou calorento, embora não seja tanto como na minha infância e adolescência, nem pouco mais ou menos. Sabe tão bem sentir o fresquinho, mesmo no inverno!

Eu não sou um entendido no assunto, nem sequer me preocupei alguma vez com isso, mas agora que o frio aperta, recordo o que se passou comigo ao longo da minha vida, a respeito do frio e do calor, e permito-me tirar algumas conclusões, que são puramente empíricas.

A primeira conclusão a que chego é que as pessoas agasalham-se excessivamente no inverno. Tendem a manter uma temperatura constante do corpo em todas as situações. A mais pequena aragem provoca-lhes então arrepios, acessos de tosse e espirros. Ora no verão as pessoas expõem o seu corpo, por vezes, a temperaturas bastante baixas. Basta passarem algumas horas numa praia da costa ocidental de Portugal Continental num dia de nortada. Neste caso, as pessoas sentem frio, arrepiam-se, até tremem de frio, mas não se constipam! Então porque é que no inverno a mais breve exposição do seu corpo a uma temperatura mais baixa lhes provoca imediatamente um resfriado?

Os seres humanos povoaram todo o planeta e não apenas as suas zonas mais temperadas. E sobreviveram. Nós não somos umas flores de estufa, que precisam de estar permanentemente protegidas. Temos uma capacidade de nos adaptarmos à temperatura ambiente que é bem maior do que imaginamos. Esta adaptação é incómoda? Mais incómodos são os resfriados e constipações. De qualquer modo, não é preciso cometer loucuras. Um pouco de adaptação é suficiente. Nós não vamos para um rio da Sibéria nadar num buraco aberto no gelo, pois não?

Recomendo, então, que se passe a usar menos roupa, mas com conta, peso e medida. Raramente está tanto frio como imaginamos que está, mas mesmo que esteja tanto frio assim, pode ser que o nosso corpo o aguente com um pouco menos de roupa. Normalmente aguenta. Se não aguentar, então não devemos hesitar em nos agasalharmos e aquecermos, inclusive em excesso, até que o nosso corpo retome a sua temperatura normal. A nossa saúde é preciosa.

Procuremos andar ao ar livre sempre que possível. O ar frio revigora o organismo e até faz emagrecer, sem necessidade de dietas. O frio ajuda a eliminar calorias, que são dissipadas do nosso corpo por irradiação. Se também pudermos fazer exercícios físicos, tanto melhor.

Pode não ser possível dormirmos com a janela aberta, como fazia Amundsen, mas é possível dispensar o uso de botijas de água quente na cama, é possível dispensar o emprego de aquecedores no quarto de dormir, é possível dispensar o emprego de cobertores elétricos (que além do mais podem provocar incêndios!), é possível mesmo dispensar o uso de roupa de dormir, como pijamas e outras peças, entrando na cama tal como viemos ao mundo. Desde que haja cobertores suficientes na cama, porque não? É o que eu faço. Só quando estou engripado é que durmo de pijama, mas sempre sem aquecimento da cama e do quarto. É claro que esta recomendação só se deve pôr em prática se a pessoa que dormir connosco (se houver alguma) estiver de acordo.

Pela manhã, devemos lavar a cara, o pescoço, as orelhas, etc., com água fria. Esta é uma prática que até a minha mãe recomendava. A nossa cara costuma andar a descoberto e só ganharemos em habituá-la a suportar melhor o frio. Note-se que eu não recomendo um banho completo de água fria, que no inverno é particularmente enregelante! Só aconselho a lavar a cara e áreas adjacentes. Uma coisa é irmos à praia no dia de Ano Novo dar um mergulho no mar, cuja água está a uma temperatura da ordem dos doze a catorze graus Celsius, na costa ocidental de Portugal Continental durante o inverno; outra coisa é tomar um banho frio em casa, em que a água sai da torneira ou do chuveiro a uma temperatura que no inverno pode ser consideravelmente inferior a dez graus. Certamente não vamos querer apanhar uma pneumonia.

Quem passa o dia a trabalhar num ambiente aquecido, como num escritório com aquecimento centralizado ou numa fábrica ou oficina em que há fontes permanentes de calor, tais como fornos e caldeiras, ou em que há aquecimento centralizado também, então sabe como é particularmente penoso sair para a rua no fim do dia de trabalho. Mal se põe os pés fora da porta, apanha-se subitamente com o ar frio na cara como se fosse uma bofetada. Uma pessoa nesta situação deve fazer um esforço para se habituar rapidamente ao frio, procurando, tanto quanto lhe for possível, correr ou fazer uma caminhada vigorosa, literalmente para aquecer. Só depois poderá entrar no carro, sem necessidade de ligar o aquecimento, ou apanhar o transporte público para regressar a casa.

O uso de luvas e meias grossas é muito recomendável. As mãos e os pés quentes são meio caminho andado para nos sentirmos quentes por inteiro, mesmo que vistamos pouca roupa. Se o sangue consegue fluir até às extremidades do corpo, mantendo-as quentes, então flui pelo resto do corpo todo, mantendo-o quente também. Nesta situação, podemos andar com pouca roupa no resto do corpo, adaptando-o ao frio, sem que sintamos esse mesmo frio. Se não tivermos luvas connosco, poderemos andar com as mãos metidas dentro dos bolsos, está claro, mas com o casaco desapertado, para habituarmos o nosso corpo ao frio. Não há nada mais desagradável, de resto, do que sentir as mãos e os pés gelados.

Se, por qualquer motivo, começarmos a ter arrepios e a tremer de frio, devemos tentar controlar estes arrepios e tremores. Se o conseguirmos, rapidamente deixaremos de sentir frio. Até parece milagre. Mas se os tremores e arrepios se mantiverem, apesar dos nossos esforços para os controlar, então deveremos agasalhar-nos logo, porque a tolerância do nosso organismo ao frio poderá estar a ser ultrapassada e corremos o risco de apanhar um resfriado.

Como em tudo na vida, tem de haver prudência e moderação. Nada de exageros. Sentir o fresquinho do inverno sabe muito bem (eu que o diga), mas não justifica que se cometam disparates e loucuras. Bom inverno (na medida do possível).


(Foto de autor desconhecido)

02 fevereiro 2018

Álvaro Pires de Évora


A Anunciação, de Álvaro Pires de Évora, c. 1430–1434, têmpera e ouro sobre madeira. Quadro adquirido pelo Estado português num leilão, tendo custado 349 000 euros

Acaba de ser tornada pública a notícia da aquisição, pelo Estado português, de um quadro intitulado "A Anunciação", da autoria do pintor quatrocentista português Álvaro Pires de Évora. Este quadro, que terá feito parte de um díptico cujo outro quadro desapareceu, deverá ficar exposto ao público no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, na ala onde se encontram os "Painés de São Vicente", de Nuno Gonçalves.

Pouco se sabe da vida de Álvaro Pires de Évora. Sabe-se que terá nascido em Évora, em data desconhecida, e terá falecido em data e local igualmente desconhecidos, talvez em Itália. Foi em Itália, com efeito, que Álvaro Pires de Évora executou a maior parte dos seus trabalhos, sabendo-se que esteve ativo entre 1411 e 1434. O seu estilo é predominantemente gótico, com uma abundante utilização de ouro.


Díptico Anunciação, de Álvaro Pires de Évora, c. 1410–1420, óleo sobre madeira. Coleção privada, Perugia, Itália


Nossa Senhora com o Menino e Dois Anjos, de Álvaro Pires de Évora, c. 1415, têmpera sobre madeira. Museu Nacional de San Matteo, Pisa, Itália


Nossa Senhora com o Menino, de Álvaro Pires de Évora, 1415–1423, têmpera sobre madeira. Igreja de Santa Croce in Fossabanda, Pisa, Itália


Nossa Senhora com o Menino, de Álvaro Pires de Évora, 1415–23, têmpera sobre madeira com fundo a ouro. Comuna de Livorno, Itália


São Miguel e Jesus Cristo, de Álvaro Pires de Évora, c. 1423, óleo sobre madeira. Museu Narodowe, Varsóvia, Polónia


Nossa Senhora com o Menino, de Álvaro Pires de Évora, c.1424, têmpera sobre madeira. Pinacoteca Nacional, Cagliari, Itália

29 janeiro 2018

Álvaro Nogueira


Repouso na fuga para o Egito, de Álvaro Nogueira, óleo sobre madeira datado de 1590. Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra


Álvaro Nogueira (1560–1635) foi um pintor maneirista natural de Penacova. Considerado um pintor secundário, Álvaro Nogueira deixou numerosas obras, de entre as quais se destacam um retábulo existente na igreja da Misericórdia do Louriçal, no concelho de Pombal, assim como duas pinturas sobre madeira, chamadas “Repouso na Fuga para o Egito” e “Juízo Final”, que estão no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra.

26 janeiro 2018

As varandas de Chaves


Correnteza de casas na Rua Direita, Chaves (Foto: Carlos Alberto Silva)


Não faltam motivos de interesse para quem quiser visitar a cidade de Chaves:

— As ruínas romanas das termas de Chaves, que estiveram na origem da cidade;

— O Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, que reúne dois nomes maiores da cultura portuguesa: o arquiteto Álvaro Siza Vieira, que projetou o edifício, e o pintor flaviense Nadir Afonso, que foi um dos maiores artistas plásticos portugueses do séc. XX;

— O Castelo da cidade, com a sua imponente Torre de Menagem;

— A Ponte de Trajano, sobre o Rio Tâmega, que é uma ponte autenticamente romana;

— A Igreja Matriz, dedicada a Santa Maria Maior, de estilo originalmente românico, ao qual se juntaram vários outros estilos ao longo dos séculos;

— A Igreja da Misericórdia, situada nas proximidades da Igreja Matriz, que é de estilo barroco e tem um conjunto notável de painéis de azulejos no seu interior;

— O Forte de São Francisco, que aloja uma das melhores unidades hoteleiras da cidade;

— A gastronomia local, em que os produtos do fumeiro desempenham um papel preponderante, sem esquecer os célebres pastéis de Chaves, é claro;

— e muito, muito mais.

Ainda por cima, sendo Chaves uma cidade relativamente pequena, tudo isto está praticamente ao alcance da mão do visitante.

Mas existe em Chaves uma preciosidade a que eu dou uma importância muito particular: as maravilhosas varandas flavienses. Sempre que percorro a Rua Direita e outras ruas do centro histórico da cidade, vou de nariz no ar e de boca aberta de espanto e de encantamento, admirado com a beleza das varandas de madeira e de ferro forjado que nessas ruas se veem. As varandas, por si sós, justificam plenamente uma visita à bela cidade de Chaves.










23 janeiro 2018

Uma Quissama


(A Carlos d'Almeida)

Em manhã fria, nevada,
n'essas manhãs de cacimbo
em que uma alma penada
não se lembra de ir ao limbo;

eu vi formosa, correcta,
não sendo europeia dama
a mais sedutora preta
das regiões da Quissama.

Mal quinze anos contava
e no seu todo brilhava
o ar mais doce e gentil!
Tinha das mulheres lindas
as graças bellas, infindas,
d'encantos, encantos mil!…

Nos lábios — posto que escuros
viam-se-lhe risos puros
em borbotões assomar...
Tinha nos olhos divinos
revérberos crystalinos
… e fulgores… de matar!…

Radiava-lhe na fronte
como em límpido horizonte
radia mimosa luz —
da virgem casta a candura
que soe dar a formosura
a graça que brota a flux!…

Embora azeitados pannos,
lhe cobrisse os lácteos pomos
denunciavam os arcanos
de dois torneados gomos…

Da cintura a palmo e meio,
bem tecidinho, redondo,
descia-lhe em doce enleio
um envoltório de hondo (*)

Viam-se-lhe a descoberto
— com arte bem modeladas —
(e que eu mirava de perto)
umas formas cinzeladas.

----------------------------

Co'o seu andar majestoso,
co'o seu todo gracioso,
quando a quissama encarei;

eu possuir um harém
e n'elle ter umas cem
— como um sultão — desejei!…

Joaquim Cordeiro da Matta (1857–1894), poeta angolano


(*) Hondo, fibra d´embondeiro de que os quissamas fazem vestuário.


Viúva da Quiçama, Angola, retratada por Albano Neves e Sousa (1921–1995)

20 janeiro 2018

Apoio para a cabeça


Apoio para uma pessoa colocar a cabeça enquanto dorme, em jeito de travesseiro. Artista anónimo do povo Luba, República Democrática do Congo. Museu do Quai Branly, Paris, França

14 janeiro 2018

A tragédia dos índios Xetá



Xetá é o nome de uma tribo de índios brasileiros, do grupo linguístico tupi-guarani, originários do noroeste do estado do Paraná. Esta tribo foi quase totalmente exterminada do modo descrito neste vídeo, ao ponto de só restarem oito sobreviventes em 1999, dispersos pelos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo. Desde então, os Xetá têm vindo a multiplicar-se, em resultado do casamento dos sobreviventes com índios de outras tribos e com não-índios. De acordo com o Instituto Socioambiental, em 2014 já se contavam 69 índios Xetá. Da destruição da floresta que os Xetá habitavam resultou uma catástrofe ecológica, também mostrada no vídeo.

A tragédia que atingiu os Xetá não é coisa do passado. Neste preciso momento, em pleno século XXI, outras tribos de índios brasileiros passam por provações equivalentes. É o caso dos Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, que vivem em barracas na beira da estrada, depois de terem sido expulsos das suas terras ancestrais por fazendeiros, e cujos líderes são sistematicamente assassinados por pistoleiros, um após outro. É o caso, igualmente, dos Korubo do oeste do Amazonas, que têm sido perseguidos e chacinados por madeireiros e garimpeiros. E existem outros casos, igualmente graves, nestes e noutros estados brasileiros. A situação dos índios tem vindo a agravar-se desde que Michel Temer foi feito presidente do Brasil.

09 janeiro 2018

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar    de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome    fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo    nem mártir    nem soldado
Mas apenas    por último    indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

José Carlos Ary dos Santos (1937–1984)


07 janeiro 2018

Cete


Fachada principal do mosteiro de São Pedro de Cete (Foto: Rota do Românico)

Cete (lê-se "Cête") é uma vila do concelho de Paredes, situada a cerca de 30 km da cidade do Porto. O que há de mais notável em Cete é o seu mosteiro românico, dedicado a São Pedro, que foi um dos vários mosteiros beneditinos da Ordem de Cluny construídos em Portugal.

Tudo indica que o mosteiro de São Pedro de Cete já existia no ano de 924, data de um documento que lhe faz referência. A poderosa torre ameada da igreja, de caráter claramente defensivo, é testemunha de um tempo de guerras, pilhagens, invasões, conquistas e reconquistas, não só entre cristãos e muçulmanos, mas também entre habitantes locais e atacantes normandos (vikings). Estes últimos, vindos do mar pelo rio Douro adentro, cobiçavam as riquezas das populações e das comunidades monásticas, que saqueavam. As igrejas eram um refúgio para os habitantes em pânico, que assim procuravam defender-se dos exércitos mouros e das hordas normandas.

O que hoje se vê no mosteiro de São Pedro de Cete não é apenas românico, mas também gótico, em resultado de acrescentos e restauros feitos, sobretudo, nos séculos XIII e XIV. Além do exterior do mosteiro, merecem ser admirados o despojado, mas belo, interior da igreja e o claustro românico.


Claustro do mosteiro de São Pedro de Cete (Foto: Direção Regional de Cultura do Norte)

01 janeiro 2018

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões (1524–1580)

31 dezembro 2017

Ballet, para não começar um novo ano sempre com valsas de Strauss


Danças Polovtsianas, da ópera Príncipe Igor, de Alexander Borodin, pela Companhia de Bailado do Teatro Bolchoi, de Moscovo, Rússia


Dança da Fada do Açúcar, do bailado O Quebra-Nozes, de Piotr Ilitch Tchaikovsky, por Nina Kaptsova


Dança Ritual do Fogo, do bailado El Amor Brujo, de Manuel de Falla, pela Companhia de Bailado da Fundación Arte Lírico, de Bogotá, Colômbia


Cena da Varanda, do bailado Romeu e Julieta, de Serguei Prokofiev, por Friedemann Vogel e Polina Semionova


Mazurka, do bailado Coppelia, de Léo Delibes, pela Companhia de Bailado do Teatro Bolchoi, de Moscovo, Rússia

29 dezembro 2017

Almada Negreiros


Figurinos da Alfaiataria Cunha, 1913, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

Está patente no Museu Nacional de Soares dos Reis, aqui no Porto, até ao dia 18 de março de 2018, a exposição “José de Almada Negreiros: desenho em movimento”, que retrata a influência da linguagem cinematográfica na obra do grande artista plástico modernista português, que foi também escritor notável.

José Sobral de Almada Negreiros nasceu na Roça da Saudade, Trindade, São Tomé e Príncipe, em 1893 e faleceu em Lisboa em 1970. Sem nunca ter frequentado qualquer escola de ensino artístico, Almada Negreiros foi no entanto um dos artistas mais importantes do século XX português, graças ao seu génio multifacetado. Embora se tenha distinguido mais como desenhador do que como pintor, aqui mostro algumas das suas pinturas.


Autorretrato num Grupo, 1925, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


Autorretrato, c. 1927, óleo sobre tela de Almada Negreiros, coleção particular


Duplo Autorretrato, 1934–36, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal. Neste quadro vê-se Almada Negreiros acompanhado da sua mulher, Sarah Afonso (1899–1983), que também foi uma artista plástica de grande valor e teve influência sobre o estilo dele


Primeiro estudo para a decoração do proscénio do Teatro Muñoz Seca de Madrid, 1929, guache sobre papel de Almada Negreiros, Museu de Arte Contemporâneoa do Chiado, Lisboa, Portugal


Maternidade, 1935, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal. Este quadro representa a mulher do artista, Sarah Afonso, com o filho de ambos, José


Retrato do Poeta Fernando Pessoa, 1954, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Museu de Lisboa, Lisboa, Portugal


As Banhistas, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

24 dezembro 2017

Natal up-to-date

Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da Lua
Rainhas de beleza vêm de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

David Mourão-Ferreira (1927-1996), in Cancioneiro de Natal, 1971


Adoração dos Pastores, de Jorge Afonso (c.1470–c.1540), Retábulo da Igreja da Madre de Deus (1515), Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

22 dezembro 2017

Cai ou não cai?

Safety Last!, filme mudo norte-americano de 1923, com Harold Lloyd como principal protagonista e realizado por Fred C. Newmeyer e Sam Taylor

"Safety Last!", que no Brasil recebeu o estúpido título de "O Homem Mosca", é um dos mais notáveis filmes de toda a história do cinema, graças à antológica sequência final da escalada, que é hilariante e, ao mesmo tempo, arrepiante. Se há filme que pode ser considerado de suspense em todos os sentidos da palavra, é este. Aproveito para chamar a atenção para o facto de as cenas mais perigosas do filme terem sido protagonizadas pelo próprio Harold Lloyd em pessoa, sem recurso a duplos. O título original do filme, "Safety Last!" (A segurança no fim!), é uma alusão a um aviso existente em locais de trabalho perigosos dizendo "Safety First!" (A segurança primeiro!). Este parece-me ser um filme apropriado para a época festiva de Natal que atravessamos, embora não seja um filme de tema natalício. Por isso o proponho. Além do mais, é um grande filme.

19 dezembro 2017

As adivinhas em anexins


(Foto: João L.)

Um rei quis experimentar o juízo de três conselheiros que tinha, e indo a passear com eles encontrou um velho a trabalhar num campo, e saudou-o:

— Muita neve vai na serra!

Respondeu o velho com a cara alegre:

— Já, senhor, é tempo dela.

Os conselheiros ficaram a olhar uns para os outros, porque era verão, e não percebiam o que o velho e o rei queriam dizer na sua. O rei fez-lhe outra pergunta:

— Quantas vezes te ardeu a casa?

— Já, senhor, por duas vezes.

— E quantas contas ser depenado?

— Ainda me faltam três vezes.

Mais pasmados ficaram os conselheiros; o rei disse para o velho:

— Pois se cá te vierem três patos, depena-os tu.

— Depenarei, real senhor, porque assim o manda.

O rei seguiu seu caminho a mofar da sabedoria dos conselheiros, e que os ia despedir do seu serviço se lhe não soubessem explicar a conversa que tivera com o velho. Eles, querendo campar por espertos, foram ter com o velho para explicar a conversa; o velho respondeu:

— Explico tudo, mas só se se despirem e me derem a roupa e o dinheiro que trazem:

Não tiveram outro remédio senão obedecer; o velho disse:

— Olhem: «Muita neve vai na serra», é porque eu estou cheio de cabelos brancos; «já é tempo dela», é porque tenho idade para isso. «Quantas vezes me ardeu a casa?» é porque diz lá o ditado: «Quantas vezes te ardeu a casa? Quantas casei a filha.» E como já casei duas filhas sei o que isso custa. «E quantas vezes conto ser depenado?» é que ainda tenho três filhas solteiras e lá diz o outro:

Quem casa filha
Depenado fica.

Agora os três patos que me mandou o rei são vossas mercês, que se despiram e me deram os fatos para explicar-lhes tudo.

Os conselheiros do rei iam-se zangando, quando o rei apareceu, e disse que se eles quisessem voltar para o palácio vestidos que se haviam ali obrigar a darem três dotes bons para o casamento das outras três filhas do velho lavrador.

Conto tradicional do Porto, in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga