21 abril 2018

O jogo do ta



Jogo do ta, um jogo tradicional dos índios Kalapalo, que vivem no Parque Indígena do Xingu, Brasil

Brincar, conviver e divertir-se é próprio de todos os seres humanos, seja nas paragens mais geladas da Sibéria, seja nas zonas mais quentes de África. Onde quer que haja crianças ou, mesmo, adultos, há brincadeiras, jogos e diversões. Sempre e em toda a parte.

Existem jogos e brincadeiras numas partes do mundo que apresentam semelhanças espantosas com outros jogos e com outras brincadeiras de outras partes do mundo, habitadas por povos aparentemente muito diferentes. Os bosquímanos (também chamados Khoisan) da África Austral, por exemplo, têm uma brincadeira que apresenta semelhanças notáveis com a do "Bom Barqueiro" em Portugal. Só não cantam «— Bom barqueiro, bom barqueiro, / deixa-me passar. / Tenho filhos pequeninos / p'ra acabar de criar. / — Passará, passará, / mas algum deixará. / Se não for o da frente, / há de ser o de trás.» Mas o resto da brincadeira é igual, incluindo a medição de forças no final. Não admira. A raça humana é uma só, o engenho humano é o mesmo em toda a parte e, por isso, não é de espantar que povos distantes e aparentemente muito diferentes acabem por ter jogos e brincadeiras semelhantes. Somos todos irmãos uns dos outros.

A brincadeira que se vê neste vídeo não tem equivalente na Europa dos nossos dias, tanto quanto eu sei. Na Europa abandonou-se o emprego do arco e da flecha desde que se generalizou o uso das armas de fogo e uma brincadeira deste tipo deixou de fazer sentido. Mas quem sabe se na Idade Média ou em épocas anteriores não terá existido na Europa um jogo semelhante a este, destinado a treinar a pontaria e a rapidez de reflexos com um arco e com uma flecha?

Esta brincadeira do povo indígena Kalapalo, do Brasil, consiste em tentar acertar com uma flecha numa rodela de palha envolvida pela casca verde de uma árvore chamada embira. Para tanto, formam-se duas equipas que se vão confrontar, as quais se dispõem em linha, a uma distância considerável uma da outra. Um membro de uma das equipas atira a rodela, chamada ta, em direção da equipa adversária, a qual terá que acertar com uma seta na rodela que passa, rolando, diante de si. Se algum jogador da equipa adversária conseguir acertar na rodela, o jogador que a tiver lançado é expulso do jogo e é substituído por um outro elemento da sua equipa, que volta a atirar a rodela. Se nenhum jogador da equipa adversária tiver conseguido acertar na rodela, invertem-se os papéis e caberá a um elemento da segunda equipa lançar a rodela na direção da primeira.

15 abril 2018

Conímbriga


Peristilo ajardinado e mosaico polícromo nas ruínas romanas de Conímbriga (Foto de autor desconhecido)

A cidade do Porto fica no mesmo lugar onde anteriormente ficava Portus Cale, de que tomou o nome. A cidade de Lisboa fica no mesmo lugar onde anteriormente ficava Olisipo, de que tomou o nome. A cidade de Braga fica no mesmo lugar onde anteriormente ficava Bracara Augusta, de que tomou o nome. A cidade de Coimbra fica no mesmo lugar onde anteriormente ficava Æminium. Porquê Æminium? Então Coimbra não vem de Conímbriga?

Conímbriga foi uma povoação antiquíssima, fundada, pelo menos, na Idade do Cobre, se é que ela não existia já na Idade da Pedra. O nome Conímbriga é de origem celta, como o de todas as povoações terminadas em "briga": Tongóbriga (perto do Marco de Canaveses), Cetóbriga (em Troia, em frente a Setúbal), Miróbriga (perto de Santiago do Cacém), Lacóbriga (que deu origem à cidade de Lagos) e muitas outras. Portugal é o país com maior percentagem de topónimos celtas da Europa, com exceção do Reino Unido e da República da Irlanda.

Conímbriga terá sido conquistada pelos Romanos em 138 A.C. e a sua romanização iniciou-se, sobretudo, no tempo do imperador César Augusto, o mesmo Augusto que era imperador de Roma quando Jesus Cristo nasceu. Durante o domínio romano, Conímbriga tornou-se uma cidade rica e importante, graças à sua localização estratégica na estrada que ligava Bracara Augusta (Braga) a Olisipo (Lisboa).


Mosaico romano em Conímbriga (Foto: Chris)

No séc. V, como é sabido, deu-se a queda do Império Romano, às mãos de povos bárbaros que o invadiram a partir do Norte e do Este. O território que corresponde ao Portugal atual foi invadido, numa primeira vaga, por três (nada menos do que três!) povos bárbaros, que ainda por cima eram dos mais temidos de todos: Suevos, Vândalos e Alanos. Os Suevos e os Vândalos eram germânicos, enquanto os Alanos eram caucasianos. Aqui chegados, estes bárbaros dividiram o território entre si, mas logo de seguida procuraram apoderar-se das terras uns dos outros, guerreando-se mutuamente. Destes combates resultou a vitória final dos Suevos sobre os Vândalos e os Alanos. Os Suevos ficaram cá, enquanto os outros dois povos se dirigiram para o sul da Península Ibérica, isto é, para a região que passou a chamar-se Vandália, nome este que evoluiu até à presente designação de Andaluzia. Da Andaluzia os Vândalos e Alanos atravessaram o estreito de Gibraltar e instalaram-se no Norte de África, onde fundaram o reino dos Vândalos, que se estendeu desde Marrocos até à Líbia atuais.

Os Suevos, que ficaram senhores da situação neste extremo ocidental da Península Ibérica, trataram de se apoderar das cidades deste território e das riquezas nelas existentes. Conímbriga não escapou à cobiça dos Suevos, tendo sido por eles pilhada e destruída no ano 468. A maior parte dos habitantes da cidade procurou refúgio numa povoação situada a perto de 20 quilómetros de distância e sobranceira ao Rio Mondego, chamada Æminium. Entre estes refugiados estava o bispo de Conímbriga. Como em Æminium passou a residir o bispo de Conímbriga, então a cidade deixou de se chamar Æminium para passar a chamar-se Coimbra, uma simplificação do nome Conímbriga.


Mosaico romano em Conímbriga (Foto: Chris)

Idácio, que foi bispo de Chaves e comandou a resistência desta outra cidade aos invasores suevos, tendo acabado por ser feito prisioneiro e posteriormente libertado, escreveu que os Suevos rapidamente trocaram a espada pela enxada. Quis Idácio dizer com isto que os Suevos acabaram por se estabelecer pacificamente nesta faixa de território, trocando a arte da guerra pela agricultura, que devia ser a sua atividade principal lá na Suábia de onde saíram. Isto mesmo foi atestado muitos séculos mais tarde pelo etnólogo Jorge Dias, que num trabalho publicado em 1948 revelou que o arado tradicional da região de Entre‑Douro‑e‑Minho é de tipo germânico.

Os Suevos fundaram um reino próprio, com capital em Bracara Augusta, a atual cidade de Braga. O reino dos Suevos foi passando pouco a pouco a chamar-se também reino de Portucale, tomando assim o nome da sua cidade portuária mais importante, a atual cidade do Porto. O território ocupado pelo reino dos Suevos compreendia toda a atual Galiza e a parte norte e centro do atual Portugal, estendendo-se até ao Rio Tejo e, por vezes, mais para sul ainda. Mais tarde o reino dos Suevos foi conquistado pelos Visigodos, um outro povo germânico entretanto chegado à Península, e estes, por sua vez, acabaram por ser derrotados pelos Árabes. Mas isto já não tem nada a ver com Conímbriga.


Mosaico romano em Conímbriga (Foto de autor desconhecido)

09 abril 2018

Portugal na Primeira Grande Guerra


9 de abril de 1918. O capitão Beleza dos Santos atravessa uma densíssima barragem de artilharia e consegue salvar a sua bateria, gravura a água forte de Adriano de Sousa Lopes (1879–1944). Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa


9 de abril de 1918. Lacouture sob o bombardeamentogravura a água forte de Adriano de Sousa Lopes (1879–1944). Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa


Uma sepultura portuguesa na terra de ninguém, 1918, gravura a água forte de Adriano de Sousa Lopes (1879–1944). Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa


Uma encruzilhada perigosa, 1918, gravura a água forte de Adriano de Sousa Lopes (1879–1944). Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa

Adriano de Sousa Lopes, de quem já aqui falei há cerca de seis meses, foi um pintor e desenhador português, que foi enviado para a frente de batalha em 1917, na qualidade de oficial encarregado de documentar iconograficamente a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial. Desta sua missão, resultou um conjunto de impressionantes desenhos a água forte, sob o título genérico de Portugal na Grande Guerra, em que o artista nos dá, em dramáticos instantâneos, um testemunho da vida nas trincheiras, dos combates travados pelo Corpo Expedicionário Português e das suas consequências, nos campos da Flandres.

Posteriormente, Sousa Lopes foi encarregado de documentar a mesma guerra em grandes telas que se encontram no Museu Militar de Lisboa, que fica em frente à estação de Santa Apolónia. Independentemente do valor artístico, que é enorme, de muitas das obras que podem ser admiradas em diversas salas do Museu Militar de Lisboa (de Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa e outros), acho que a secção do museu dedicada à Primeira Guerra Mundial é a única que merece verdadeiramente ser visitada, muito por causa do enorme dramatismo emprestado por Sousa Lopes às suas pinturas. Elas mostram-nos como a Primeira Guerra Mundial foi vivida pelo Corpo Expedicionário Português.


Destruindo o obus, dramática tela de Adriano de Sousa Lopes (1879–1944). Museu Militar de Lisboa

04 abril 2018

Crianças de África


Mafalala, Maputo, Moçambique (Foto: Grég E.)

Completa-se hoje meio século sobre o assassínio de Martin Luther King Jr. (1929–1968). O seu sonho de um mundo isento de ódio e de discriminação, atingível sem recurso à violência, parecia ter ficado definitivamente comprometido. Não ficou. É verdade que esse sonho não está realizado, longe disso, mas fizeram-se alguns avanços, que se deseja que possam continuar até ao fim.

Os rostos das crianças que figuram nesta pequena galeria de imagens, que colhi aqui e ali na internet, as quais vivem no continente do qual os antepassados de Martin Luther King Jr. foram levados à força para a América, são uma chama de esperança por um futuro mais livre, mais humano e mais justo, tal como ele sonhou.


Etnia Himba, Namíbia (Foto de autor desconhecido)


Axim, Gana (Foto: cdoadn)


Senegal (Foto: Jim Sohm)


Mali (Foto: Izla Photography)


Etnia Yoruba, Benim (Foto: Steven Goethals)


Ancuabe, Cabo Delgado, Moçambique (Foto: Augusto Rodríguez portraits)

01 abril 2018

Oratória da Páscoa


Oratória da Páscoa, BWV 249, de Johann Sebastian Bach (1685–1750), pelo Coro e Orquestra Barrocos de Amesterdão, dirigidos por Ton Koopman. Os cantores solistas não estão identificados no Youtube, mas deverão ser Lisa Larsson (soprano), Elisabeth von Magnus (meio-soprano, que nesta oratória canta como soprano e também como contralto), Bogna Bartosz (contralto), Gerd Türk (tenor) e Klaus Mertens (baixo). Os instrumentistas solistas deverão ser os músicos da Orquestra Barroca de Amesterdão Margaret Faultless (violino), Jaap ter Linden (violoncelo), Marcel Ponseele (oboé e oboé de amor), Wilbert Hazelzet (flauta transversal) e Stephen Keavy (trompete)

A Oratória da Páscoa (chamada Oratório da Páscoa no Brasil) é uma oratória composta pelo compositor alemão Johann Sebastian Bach, que foi apresentada ao público pela primeira vez em 1 de abril de 1725, ou seja, há precisamente 293 anos, que também foi Domingo de Páscoa. Após a sua estreia, a oratória sofreu duas revisões por parte do autor, a primeira em 1735 e a segunda alguns anos mais tarde. É a última versão desta oratória que se ouve nesta gravação.

Em vez de ter um narrador, como acontece, por exemplo, na Oratória de Natal, a Oratória da Páscoa de Bach é narrada por quatro personagens, que são o apóstolo Simão Pedro (tenor), o apóstolo João (baixo), Maria Madalena (contralto) e Maria mãe de Tiago (soprano), que encontraram o túmulo de Jesus Cristo vazio.

30 março 2018

O "Cristo Negro"


Escultura em madeira chamada Cristo Negro, de autor anónimo do séc. XIV. Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra, Portugal (Foto: Manuel V Botelho)

28 março 2018

Rostos na floresta





Philippe Echaroux é um artista francês nascido em 1983, que tem fotografado muitas celebridades, sobretudo do mundo do desporto, além de produzir arte urbana através de projeções de luz.

No âmbito desta sua última função, Philippe Echaroux realizou um trabalho com um povo indígena do Brasil: os índios Suruí, que a si próprios se chamam Paiter, os quais foram contactados pela primeira vez em 1969 e vivem nos estados de Rondônia e Mato Grosso. Os Suruí têm tido graves problemas resultantes da invasão e devastação das suas terras por parte de madeireiros, garimpeiros e outros invasores.

Com a finalidade de promover a defesa da floresta amazónica, Philippe Echaroux realizou uma sessão de projeção de rostos de índios Suruí nas árvores da floresta. O resultado pode ser observado no vídeo acima.

27 março 2018

Mocímboa do Rovuma

(11.Janeiro.1971)

O capim está prestes a estalar
O suor ácido a nublar-nos o olhar
O medo a fermentar
No silêncio fúnebre que paira no ar
O olhar cansado de estar atento
Um tique doloroso em cada movimento
Um gole de água a matar a sede
Por um breve momento
E nem uma pontinha de vento
Para nosso desalento
Um alto para comer o que sobra da ração
Para enganar a fome na última migalha de pão
Num descanso no regaço da inquietação

E num segundo
Como se fosse o fim do mundo
Uma terrível explosão
Pedaços de um corpo espalhados na picada
Um fumo negro e espesso
A esconder ferros torcidos
Um castigo que não mereço
Gritos a abafar o ruído da metralha
Vindo da emboscada
Um morto e tantos feridos
O preço desta guerra canalha
E chorei desalentado
Como se fosse eu o culpado
Daquele corpo mutilado
Lamentei não ter desertado
E até perdi a fé
Por Deus não estar do nosso lado.

16. Maio.2004

Carlos Luzio (1947–2004), ex-alferes miliciano em Moçambique, in Pescador de Sonhos (Poemas de Guerra), edição póstuma, 2005. Poema transcrito do blog Notícias de Bustos


Cena da Guerra Colonial (1961–1974). Consequências do acionamento de uma mina terrestre por uma viatura militar portuguesa em 10 de fevereiro de 1970, entre Massibi e Caianda, Cazombo, no Leste de Angola, de que resultaram 1 morto e 12 feridos (Foto: João Petrucci)

24 março 2018

O arpeggione


O instrumento musical chamado arpeggione (Foto de autor desconhecido)

O arpeggione é um instrumento musical de cordas inventado em Viena por volta de 1823 por Johann Georg Stauffer e Peter Teufelsdorfer. É um instrumento híbrido, que parece resultar do cruzamento entre a viola da gamba (semelhante ao violoncelo, mas mais pequena) e a guitarra clássica. O arpeggione tem seis cordas e braço com trastes, à semelhança da guitarra clássica, mas toca-se esfregando as suas cordas com um arco, tal como a viola da gamba e o violoncelo.

O arpeggione gozou de alguma popularidade pouco depois da sua invenção, mas a seguir foi esquecido. Ainda assim, o compositor austríaco Franz Schubert escreveu uma sonata para arpeggione e pianoforte ("antepassado" imediato do piano), que ainda hoje se toca, numa versão para violoncelo e piano ou, então, para violeta e piano. Os vídeos que se seguem procuram dar-nos a sonoridade original desta sonata, produzida pelo próprio arpeggione e um pianoforte da época de Schubert.


Primeiro andamento (Allegro moderato) da Sonata em Ré para arpeggione e pianoforte, D. 821, de Franz Schubert (1797–1828), por Nicolas Deletaille, em arpeggione, e Alain Roudier, em pianoforte


Segundo andamento (Adagio) e terceiro andamento (Allegreto) da Sonata em Ré para arpeggione e pianoforte, D. 821, de Franz Schubert (1797–1828), por Nicolas Deletaille, em arpeggione, e Alain Roudier, em pianoforte

21 março 2018

A Eterna Primavera


A Eterna Primavera, c. 1884, escultura em bronze de Auguste Rodin (1840-1917). Museu Rodin, França

17 março 2018

Stephen Hawking (1942–2018)


«Podem ouvir-me? Foi um tempo glorioso estar vivo e fazer investigação em Física Teórica. A nossa visão do universo mudou muito nos últimos 50 anos e sinto-me feliz se tiver conseguido fazer uma pequena contribuição para tal. O facto de que nós, humanos — que somos, nós próprios, meros conjuntos de partículas fundamentais da natureza —, tenhamos sido capazes de nos aproximarmos da compreensão das leis que nos governam, assim como ao universo, é um grande triunfo. Quero partilhar a minha excitação e entusiasmo com esta procura. Portanto, lembrem-se de olhar para as estrelas e não para os pés. Tentem compreender o que veem e perguntem-se sobre o que faz o universo existir. Sejam curiosos e, por muito difícil que a vida possa parecer, há sempre algo que podem fazer e conseguir ter êxito. É importante que não desistam. Obrigado por me escutarem.»Stephen Hawking (1942–2018)

Já praticamente foi dito tudo o que havia para se dizer sobre Stephen Hawking, a sua genialidade, a sua doença neurodegenerativa e a sua incrível força de vontade para superá-la, recusando-se a deixar-se ficar preso num corpo imóvel e grotesco, como um vegetal. Quase totalmente impossibilitado de comunicar com o mundo à sua volta, Stephen Hawking, em vez de se fechar sobre si mesmo, conseguiu abranger o Universo todo! Não se dedicou apenas à sua pessoa, à sua terra natal, ao seu país, ao seu planeta, mas ao Universo TODO, em todas as suas dimensões espácio-temporais!

Stephen Hawking foi um físico teórico, como só a sua doença lhe permitia ser. Formulou diversas teorias a partir do seu fulgurante raciocínio, de entre as quais sobressai a teoria de que os buracos negros, afinal, não serão tão negros como se diz, isto é, não serão as singularidades cuja atração gravitacional tudo absorve, incluindo a luz, como se diz. Segundo Hawking, os buracos negros também conseguem emitir energia cá para fora até, em última instância, acabarem por desaparecer. Nesta sua teoria, Hawking aliou a gravidade à eletrodinâmica quântica, segundo a qual o vazio absoluto não existe na realidade, pois estão constantemente a aparecer, a partir do nada, pares de partículas virtuais, que logo a seguir se aniquilam mutuamente e desaparecem. Quer isto dizer que constantemente aparecem e desaparecem, a partir do vazio, pares de quarks e antiquarks, eletrões e antieletrões (ou positrões), etc. Se um par destas partículas surgir precisamente na linha do "horizonte" de eventos de um buraco negro, poderá acontecer que uma dessas partículas seja imediatamente absorvida pelo próprio buraco negro, enquanto a outra partícula conseguiria escapar à atração e seria lançada para o espaço, impossibilitada de se unir à sua parceira (que o buraco negro "engoliu") para desaparecer com ela. Esta emissão de partículas a partir do "horizonte" de um buraco negro recebeu o nome de "radiação Hawking". O próprio Hawking previu igualmente que seria impossível detetar esta radiação, por qualquer meio que seja, por ser incrivelmente lenta.

É verdade que tudo isto não passa de uma teoria, saída do cérebro privilegiado de Stephen Hawking, juntamente com outras teorias por ele formuladas, como uma que diz que, afinal, é possível recuperar informação de um buraco negro. Como teorias que são, estas ideias podem estar certas ou podem estar erradas. Será possível que no futuro (que certamente não será próximo) se virá a conseguir comprovar a sua veracidade? Lembremo-nos de um outro génio da Física, Albert Einstein. Como consequência da sua Teoria da Relatividade Generalizada, Einstein tinha previsto, no ano 1916, a existência de ondas gravitacionais. Noventa e nove anos depois, mais precisamente no dia 14 de setembro de 2015, foi possível detetar, pela primeira vez, ondas gravitacionais provenientes da fusão de dois buracos negros. Foi preciso esperar praticamente um século para se concluir que, também neste caso, Einstein estava certo. As ondas gravitacionais existem mesmo! E a radiação Hawking? Existirá também? Fica no ar a pergunta, para a qual ninguém tem ainda uma resposta.

11 março 2018

Amadeo de Souza-Cardoso


"Saut du Lapin", 1911, óleo sobre tela de Amadeo de Souza-Cardoso, The Art Institute of Chicago, Chicago, Estados Unidos da América

Falecido há cem anos, Amadeo de Souza-Cardoso (1887–1918) foi um pintor português digno de figurar entre os melhores da Europa do início do séc. XX. Inserindo-se na corrente modernista, Amadeo de Souza-Cardoso produziu uma obra pictórica de cores vibrantes e em clara ruptura com a pintura convencional da sua época. Os contactos que Amadeo teve em Paris, onde viveu durante sete anos, com outros artistas seguidores de várias correntes, como Modigliani, de quem foi amigo, permitiram-lhe pôr em diálogo na sua obra diversas influências e alusões, como o futurismo, o cubismo, o abstracionismo, o expressionismo, etc. Estas influências e alusões conjugam-se entre si e complementam-se, em vez de entrarem em conflito, produzindo um resultado admirável.


Menina dos Cravos, 1913, óleo sobre madeira de Amadeo de Souza-Cardoso, Museu do Caramulo, Caramulo, Portugal


Cozinha da Casa de Manhufe, 1913, óleo sobre madeira de Amadeo de Souza-Cardoso, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


Cabeça, c. 1913, óleo sobre tela de Amadeo de Souza-Cardoso, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


"Les Cavaliers", c. 1913, óleo sobre tela de Amadeo de Souza-Cardoso, Musée National d'Art Moderne, Paris, França


Procissão do Corpus Christi, 1913, óleo sobre madeira de Amadeo de Souza-Cardoso, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


Pintura, c.1914, óleo sobre tela de Amadeo de Souza-Cardozo, Col. José Ernesto de Souza-Cardoso, Museu Municipal Souza-Cardoso, Amarante, Portugal


Canção Popular — a Russa e o Figaro, c. 1916, óleo sobre tela de Amadeo de Souza-Cardoso, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


Barcos, c. 1913, óleo sobre tela de Amadeo de Souza-Cardoso, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


Entrada, 1917, óleo sobre tela com colagem de Amadeo de Souza-Cardoso, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

08 março 2018

Inteligência artificial


Uma operação de marketing: "conferência de imprensa" dada por um robô humanoide chamado Sophia, na Web Summit 2017, Lisboa

Imaginemos que um papagaio seria capaz de aprender a recitar um soneto completo de Florbela Espanca, do princípio ao fim e sem se enganar. Teoricamente, pelo menos, não é completamente impossível que um tal papagaio possa existir. Poderemos então dizer que esse papagaio é inteligente? Se esse papagaio não compreender o que diz, certamente não poderá ser considerado inteligente.

Imaginemos, por absurdo, que esse papagaio seria também capaz de compreender o conteúdo do referido soneto. Poderemos dizer que, então sim, esse papagaio é inteligente? Se esse papagaio não sentir a emoção e o sentimento colocados pela grande poetisa em cada um dos seus versos, certamente não poderá ser considerado inteligente.

Então, como é possível que se possa dizer que é inteligente um robô humanóide que se limita a imitar (mal) as expressões faciais de um ser humano e a papaguear umas quantas frases previamente gravadas, como resposta a perguntas que lhe são feitas, sem compreender o sentido dessas frases?

Tem havido muito sensacionalismo à volta do tema da chamada inteligência artificial. O aparecimento de um robô humanoide chamado Sophia (exibido no Web Summit 2017, em Lisboa) só contribuiu para aumentar ainda mais esse sensacionalismo. A chamada "inteligência artificial", entre comas, está aí (isso é um facto), tem potencialidades extraordinárias e igualmente assustadoras (também é um facto), mas ainda não está ao virar da esquina, como os departamentos de marketing de algumas empresas nos querem fazer crer. De qualquer modo, têm-se feito avanços enormes no sentido do surgimento, num futuro que não se sabe quando será, de uma verdadeira inteligência artificial. Ou não.

A expressão "inteligência artificial" é antiga. Já nos anos 70 e, sobretudo, nos anos 80 do século passado, se falava nela nos meios académicos e em alguns meios industriais, como sendo algo que poderia vir a surgir a breve prazo. Mas tal não se verificou. O que se desenvolveu nesses anos foram sistemas periciais, que produziram excelentes resultados, se tivessem sido bem desenvolvidos, mas que de inteligência não tinham nada. Os sistemas periciais, de um modo geral, não passam de "árvores de decisão", em que se encontram encadeadas decisões deste tipo:

«Verifica-se a condição x? Sem sim, então y. Se não, então z.» Os resultados y e z podem ser, por exemplo, «procede desta maneira», «não sei resolver o problema e acabou», «problema resolvido e acabou», «volta atrás», «vai testar a condição w que está acolá», «verifica a nova condição x'», etc. A nova condição x' é do mesmo tipo. «Verifica-se a condição x'? Sem sim, então y'. Se não, então z'.» Etc., etc. No fim, poderemos ter milhares de resultados diferentes, conforme a complexidade do sistema que estiver a ser trabalhado.

Atualmente, muitos programas de teste e diagnóstico, usados em muitos domínios da técnica e do conhecimento, baseiam-se neste tipo de "árvores de decisão". Mas a inteligência artificial está anos‑luz à frente disto.

Ao mesmo tempo que se desenvolviam sistemas periciais baseados numa arquitetura convencional de computadores (chamada arquitetura de von Neumann), foi-se desenvolvendo um novo conceito de computação, baseado numa arquitetura radicalmente diferente da convencional, que foi o conceito das chamadas "redes neuronais artificiais". Aqui sim, deu-se um enorme avanço no sentido do que poderá vir a ser uma inteligência artificial a sério. Ou não.

As redes neuronais artificiais têm como finalidade imitar o funcionamento das redes de células nervosas no cérebro, em que cada célula, chamada neurónio, está ligada às células vizinhas através de conexões, chamadas sinapses. Num cérebro biológico, a informação recebida através dos sentidos é recolhida e processada por milhares e milhares de neurónios no cérebro, que trabalham em rede até que se produza um resultado final, que pode ser, por exemplo, a atuação de um músculo do organismo ou o armazenamento de uma recordação em outros neurónios que estão afetos à memória.

O cérebro humano tem muitíssimos milhões de neurónios, cada um dos quais com milhares de sinapses a interligá-lo aos neurónios vizinhos. O resultado é uma rede extremamente complexa e eficiente, impossível de ser reproduzida fielmente por meios artificiais, tão grande é a sua complexidade.

As redes neuronais artificiais não conseguem ter essa complexidade, nem pouco mais ou menos, mas conseguem já obter resultados que quase nos parecem milagrosos. Por exemplo, as redes neuronais artificiais têm a capacidade de aprender! É verdade! Aprendem com o que lhes é ensinado por um humano (como nos sistemas periciais), mas também são capazes de aprender por si próprios, sem intervenção exterior, corrigindo erros cometidos anteriormente e aprofundando os conhecimentos que já possuíam! É a chamada deep learning, que é atualmente objeto de uma intensa investigação. Isto, sim, já pode ser considerado um início de inteligência artificial, mas ainda está incomparavelmente atrás das possibilidades oferecidas por um cérebro humano.

«Mas a inteligência (natural) não é apenas raciocínio lógico», argumentar-ser-á com toda a razão. «É também intuição, sentimento, emoção, instinto, etc. Onde está o lugar, na inteligência artificial, para estas expressões de inteligência real?» Não está. Esse lugar não existe, pelo menos por enquanto, nem se sabe sequer se virá a existir no futuro. Talvez seja preciso voltar à estaca zero e começar tudo de novo, em novas bases, para que a inteligência artificial (agora sem comas) possa ser equiparável à inteligência natural, porque também já tem intuição, emoção, sentimento, etc.

Tomemos o exemplo de uma flor. Uma rede neuronal artificial poderá identificar sem dificuldades uma flor numa fotografia, através de um algoritmo de reconhecimento de padrões; poderá associar a imagem de uma flor às letras F, L, O e R, etc. Mas não consegue, por mais "inteligente" que seja, sentir a emoção transmitida pela beleza de uma flor, nem consegue, por mais "inteligente" que seja, oferecer uma flor a um ente amado (pode ser uma outra forma de inteligência artificial), porque não faz a mais insignificante ideia do que seja o amor.

01 março 2018

A Paixão de Joana d'Arc



A Paixão de Joana d'Arc, filme mudo de longa metragem rodado em França e datado de 1928, do realizador dinamarquês Carl Theodor Dreyer (1889–1968). A principal protagonista é Renée Jeanne Falconetti, também chamada Maria Falconetti (1892–1946)

Este é considerado um dos melhores filmes de sempre e o seu autor, o dinamarquês Carl Dreyer, um dos maiores realizadores de sempre. A principal protagonista deste filme, a atriz francesa Renée Jeanne Falconetti, também chamada Maria Falconetti, que interpreta o papel de Joana d'Arc, apresenta aqui um desempenho igualmente extraordinário, pelo que também pode ser considerada uma das melhores atrizes de cinema de sempre.

Datado de 1928, o filme A Paixão de Joana d'Arc foi rodado em França e ainda é mudo, apesar de já terem começado a surgir os primeiros filmes sonoros nesse tempo, porque o orçamento disponível era muito escasso. Sendo mudo, este filme está legendado originalmente em francês. A versão que aqui se mostra apresenta igualmente uma tradução em inglês.

Tendo este filme uma grande abundância de close-ups, quis Carl Dreyer que os atores se apresentassem sem qualquer espécie de maquilhagem, o que, aliado ao grande contraste entre claros e escuros da fotografia, que também é propositado, empresta uma grande carga expressiva aos rostos. O que é curioso é que estes rostos parecem quase todos saídos diretamente dos Painéis de São Vicente, a obra-prima do pintor português quatrocentista Nuno Gonçalves!

Enfim, este é um filme a ver sem falta.

27 fevereiro 2018

As cunhadas do rei (conto popular português)


Uma pequena azenha no ribeiro de Enxidrô, um afluente do rio Bestança, nas proximidades de Vila de Muros e da Quinta do Sargaçal, Cinfães (Foto: Associação Por Boassas)

O rei andava de noite pelas ruas acompanhado do seu cozinheiro e do seu copeiro disfarçado, escutando pelas portas; passou por um balcão onde estavam três meninas, que estavam conversando, e pôs-se à escuta do que diziam:

— Ali vão três tunantes; se um fosse o rei, já eu sabia quem eram os outros.

— Um era o cozinheiro. Quem me a mim dera casar com ele; sempre havia de comer bons fricassés.

— O outro era o copeiro; pois eu cá o que queria era casar com ele, porque havia de ter bons licores.

Disse a mais nova:

— Eu não sei quem eles são; mas ainda que fossem condes ou duques, antes queria casar com o rei, porque lhe havia de dar três meninos cada um com a sua estrela de ouro na testa.

O rancho foi-se embora, mas ao outro dia, o rei mandou ir à sua presença as três irmãs. Perguntou-lhes se era verdade o que elas tinham dito na véspera à noite. Respondeu a mais velha por si. Disse o rei:

— Pois então casarás com o meu cozinheiro.

A do meio tambem disse que tinha falado por zombaria; o rei mandou que se arrecebesse com o copeiro. Chegou-se por fim à mais moça, que era a mais bonita:

— Então, disseste que só querias casar comigo?

— É verdade, não posso mentir; mande-me vossa majestade castigar.

O que o rei fez foi casar com ela; as irmãs ficaram a arrebentar de inveja, mas viviam no palácio. Ao fim do tempo, a que estava rainha teve dois meninos com uma estrelinha na testa. As irmãs, que estavam com ela, trocaram os meninos por dois cães. Os meninos foram botados ao rio dentro duma condessinha, e foram por água abaixo ter ao moinho de um moleiro; como lhe parasse a água, ele saiu a ver o que era, e achando as duas criancinhas tomou-as para casa e criou-as. Ora o rei andava longe da terra, e quando veio soube do caso e ficou muito triste, mas não fez mal à mulher. Passado tempo a rainha teve uma menina, e as irmãs, vendo que ela também tinha uma estrela na testa, trocaram-na por uma cadelinha e mandaram-na deitar ao rio; assim foi ter ao moinho onde já estavam os irmãos. O rei quando soube que a sua mulher tinha tido uma cadela, mandou-a enterrar até á cinta no pátio do palácio, para que todos que entrassem ou saissem lhe cuspissem em cima.

Os três meninos cresceram, e o moleiro pôs-lhes umas carapucinhas para encobrir as estrelas de ouro que tinham na testa.

Um dia foi uma pobre pedir esmola à porta do moleiro; os meninos deram-lhe a esmolinha, e era Nossa Senhora, que lhe disse, que quando se vissem em alguma aflição dissessem: «Valha-me aquela pobrezinha.» Veio a peste, e o moleiro e toda a sua gente morreu, e os meninos foram todos três por esse mundo. Apareceu-lhe a pobre que os guiou até ao pé do palácio do rei, e deu-lhes a cada um a sua pedrinha, para se tornarem em um grande palácio quando as atirassem ao chão.

As tias estavam à janela do paço, e conheceram que eram os meninos das estrelinhas na testa, e trataram logo de ver se os matavam. Mandaram ter com eles uma criada bruxa, que disse ao mais novinho, para entrar no jardim e apanhar um papagaio. Ele disse-lhe que não; vai o mais velho como animoso, disse:

— Pois vou eu.

E assim que entrou perdeu-se lá dentro e ficou encantado em leão. O outro quando viu que o irmão não tornava chamou pela pobrezinha; ela veio e deu-lhe uma lança, e disse:

— Vai ao jardim, e fere com ela o leão encantado.

Ele assim fez; e apareceu-lhe logo outra vez o irmão, que já tinha apanhado o papagaio. Botaram a fugir logo, e os portões do jardim fecharam-se de repente e só apanharam uma pontinha da aba do casaco de um deles.

A criada bruxa tinha no entretanto ido ter com a menina, e falou-lhe em certas maravilhas da árvore que bota sangue e da água de mil fontes. A menina pediu aos irmãos estas cousas, que eram para enfeitar os jardins do seu palácio. Cada um foi lá por sua vez e lá ficaram ambos encantados. Quando a menina viu que não tornavam, disse muito triste:

— Valha-me aqui a nossa pobrezinha.

Apareceu-lhe a Nossa Senhora, que lhe ensinou como havia de ir ao jardim, e desencantar os irmãos, e enfrascar a água de mil fontes e cortar o ramo da árvore que deitava sangue. Ela fez tudo, mas era preciso, que por mais barulho que ouvisse nunca olhasse para trás, senão ficava também encantada. Quando vinha com os irmãos e com as cousas que eles tinham ido buscar, era muito o barulho de vozes e só ao sair da porta é que deu um jeitinho à cabeça para ver para trás, mas foi o bastante para lhe ficarem presos os cabelos. Os irmãos foram buscar umas tesouras, e voltaram depois todos para o seu palácio defronte do rei.

Quando o rei aparecia à janela o papagaio não fazia senão rir. O rei convidou os meninos para um banquete e pediu que levassem o papagaio. Os meninos foram, mas ao passarem pela mulher que estava enterrada até á cinta não quiseram cuspir nela. O rei teimou, mas não conseguiu nada. Foram para a mesa; uma das irmãs da rainha é que trinchava, e tinha botado resalgar na sopa dos meninos. O papagaio avisou-os:

— Meninos, não comam que tem veneno.

O rei ficou desconfiado, e perguntou aos meninos porque não comiam; disseram eles:

— Falta aqui uma pessoa; é aquela mulher que está enterrada até à cinta no pátio do palácio.

Disse o papagaio:

— Mande-a o rei vir, porque ela é a mãe destes meninos.

O rei mandou vir a mulher; disse-lhe o papagaio:

— Sente-a agora ao seu lado; olhe que ela é sua mulher.

E contou como é que as cunhadas do rei tinham mandado botar ao rio em canastrinhas os três meninos, e tinham posto em seu lugar os cães; e se se quisesse confirmar, que visse se os meninos tinham na testa as estrelinhas. Os meninos tiraram as carapucinhas, e o rei conheceu-os, e abraçou a sua mulher; e mandou que as cunhadas comessem a comida envenenada, e logo ali arrebentaram.

Conto tradicional de Airão, Guimarães, in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga (1843–1924)

23 fevereiro 2018

31 anos após a morte de Zeca Afonso, a sua música continua viva


Canto Moço, por José Afonso (1929–1987)

21 fevereiro 2018

Água que não molha


A Onda, de William Bouguerau (1825–1905), óleo sobre tela de 1896. Coleção privada

William Bouguereau foi um pintor francês que gozou de grande fama no seu tempo. Tendo caído no esquecimento durante quase todo o séc. XX, tido como um artista puramente académico, Bouguerau é de novo valorizado na atualidade e as suas obras são de novo apreciadas.

William Bouguerau (de seu nome completo William-Adolphe Bouguerau) foi, sobretudo, um pintor de mulheres. O nu feminino desempenhou um papel de particular relevo na sua obra, em que as mulheres são frequentemente representadas à beira-mar. A tela que aqui se mostra é um dos seus melhores quadros deste tipo.

Um aspeto muito curioso deste quadro é o facto de a mulher representada se mostrar completamente seca, apesar de estar numa proximidade das ondas tal que se esperaria que estivesse completamente molhada. Mesmo as partes do seu corpo que assentam na água se apresentam secas, como se a água fosse sólida e não líquida.

Eu não sei em que condições Bouguerau pintou este quadro, mas tudo indica que ele pintou, primeiro, o mar rebentando numa praia, sem mulher nenhuma, e a seguir pintou a mulher por cima, perante um modelo posando no seu próprio estúdio, num ambiente fechado e talvez aquecido. Mesmo assim, Bouguereau poderia tentar mostrar a mulher molhada, pintando gotas de água a fingir que escorrem pelo seu corpo, mas preferiu representá-la tal como ele a viu: enxuta.

16 fevereiro 2018

Isto é um átomo


No centro da imagem, um pontinho quase invisível é um átomo de estrôncio (Foto: David Nadlinger, Universidade de Oxford, Inglaterra)

Os átomos são os mais pequenos constituintes da matéria em que é possível observarmos as propriedades dos elementos químicos. Se dividirmos um átomo nos seus próprios constituintes, deixaremos de ter um elemento, para passarmos a ter, apenas, protões, neutrões (se os houver) e eletrões.

Os átomos têm dimensões incrivelmente pequenas. Um átomo de estrôncio tem um raio calculado em 219 picómetros, ou seja, 0,000 000 219 milímetros! Apesar destas ínfimas dimensões, já é possível vermos átomos individuais recorrendo aos mais avançados microscópios eletrónicos. Até já é possível movimentar átomos, um a um, de um lugar para outro! Os átomos aparecem nos microscópios eletrónicos como pequeninos círculos de aspeto difuso. As nuvens de eletrões que orbitam em torno do núcleo dos átomos (composto pelos protões e neutrões) não nos permitem ter uma visão nítida deles.

Tendo os átomos tão reduzidas dimensões, somos levados a concluir que nunca os poderemos ver a olho nu. Ou será que podemos?

Podemos, sim, senhores. Basta isolarmos um átomo e fazê-lo brilhar. Foi o que fez o cientista David Nadlinger, da Universidade de Oxford, que manteve um átomo de estrôncio isolado e imóvel, preso dentro de uma câmara estanque na qual foi produzido um vácuo extremamente elevado. O átomo foi mantido firme dentro da câmara por meio de campos eletromagnéticos, produzidos por dois elétrodos metálicos com pontas em forma de agulhas. Sobre o átomo assim isolado e imóvel, Nadlinger fez incidir um laser de radiação ultravioleta, com uma frequência tal que o átomo, excitado pelo laser, emitiu de volta radição visível. Foi então possível observar o átomo à vista desarmada e fotografá-lo. Não é inequivocamente afirmado que o átomo tenha sido observado à vista desarmada, mas talvez seja possível observá-lo num quarto mergulhado em completa escuridão, como um pontinho luminoso muito ténue. A imagem obtida ganhou o primeiro prémio de um concurso de fotografia científica organizado pelo Engineering and Physical Sciences Research Council (EPSRC).


A fotografia vencedora completa, mostrando o dispositivo que permitiu a visão de um átomo de estrôncio, no centro (Foto: David Nadlinger, Universidade de Oxford, Inglaterra)

13 fevereiro 2018

Os caretos de Lazarim



As comunidades rurais possuem um conjunto de saberes e de práticas que pretendem preservar e transmitir às gerações futuras, como património cultural e identitário. A vila de Lazarim, no concelho de Lamego, Norte de Portugal, encontrou no Carnaval um tempo de excepção para afirmar a sua identidade cultural, recuperando os ritos, os símbolos e os textos associados às festas de Inverno. A partir de 1985 as práticas carnavalescas foram institucionalizadas, num modelo performativo que procura mostrar a tradição local ao mundo global. (…)

O Carnaval constitui um sistema simbólico associado à transição do Inverno para a Primavera, do velho para o novo, da morte para a vida, do frio para o calor, da parte masculina para a parte feminina do universo, reunindo diversos significados que assinalam este ciclo na vida das comunidades rurais. Um ciclo de renovação cósmica e social, tempo de utopia e transgressão, onde tudo o que é socialmente marginalizado busca uma libertação catártica, vencendo simbolicamente a hierarquia, a ordem, a opressão, e o sagrado. (…)

Em Lazarim, três gerações de artesãos, com diferentes expressões artísticas, transfiguram um tronco de amieiro, árvore que nasce nas margens do rio Varosa, em figuras representativas da tradição local. Cada um destes homens regista simbolicamente nas suas máscaras, o seu universo cultural e o seu imaginário. (…)

Os Caretos de Lazarim exibem através das suas máscaras representações de figuras históricas como bispos, reis e romanos, de figuras místicas como bruxas e diabos, de figuras grotescas, e ainda figuras de animais, como o burro, a corsa, o mocho e o porco. (…)

Os Caretos completam a máscara com outros elementos de vestuário, como fatos confeccionados de palha, ou de barba de milho entrançado, capas vermelhas ou negras com debruados. Na mão, transportam quase sempre um objecto de uso agrícola, como uma enxada ou uma forquilha, havendo alguns que usam um cajado de nogueira, que nos remetem para o sistema simbólico do mundo rural. (…)


(…) O início do ritual é sinalizado pelo ribombar dos foguetes às três horas da tarde de terça-feira gorda. No Largo do Padrão começam a afluir os primeiros Caretos, lançando farinha e jactos de água sobre os forasteiros e os locais. Os forasteiros respondem com disparo de câmaras fotográficas, tentando registar tudo aquilo que foi anunciado como tradicional. No Largo da Casa do Povo, homens e mulheres preparam “ o banquete”, a confecção da feijoada, em grandes panelas de ferro, que no final do ritual será partilhada pelos visitantes e locais. Os homens carregam lenha, ateando o fogo, e as mulheres aprontam os ingredientes da feijoada, composta de feijão branco, enchidos, entrecosto e orelha de porco. No centro da Vila, outro grupo de mulheres prepara o caldo de farinha, composto de farinha de milho, couves e enchidos de porco, que têm a mesma finalidade, a de serem consumidos depois do ritual do testamento. Entretanto, soam as primeiras batidas dos bombos que ecoam no Largo do Padrão. O grupo de tocadores é constituído por quatro elementos, um par de bombos e um par de caixas que vão percorrendo as ruas de Lazarim, seguidos pelos Caretos, nas suas inocentes tropelias, e pelos representantes dos grupos das Comadres e dos Compadres. O cortejo vai até ao lugar de Valverde, onde o Sr. Hélio Fernandes, artesão dos bonecos carnavalescos, lhes entrega uma espécie de andor, com a mascote do grupo de género, um boneco, para o grupo das Comadres e uma boneca, para o grupo dos Compadres, feitos de papel colorido com uma instalação pirotécnica. (…)

O cortejo atravessa a vila, desde Valverde até ao Padrão, e os participantes concentram-se no Largo da antiga Casa do Povo. Os Caretos dançam ao som dos bombos e caixas, em volta da fogueira onde se cozinha a feijoada, enquanto os Compadres e as Comadres se concentram no cimo das escadas da Casa do Povo. (…)

O grupo das Comadres e dos Compadres são representados por duas raparigas e por dois rapazes, solteiros. Um representante de cada grupo será escolhido para leitor do testamento, e o outro, transporta a mascote; o boneco simbolizando o Compadre e a boneca simbolizando a Comadre. O significado atribuído à representação dos géneros, através da figura dos bonecos, é particularmente relevante, na medida em que as cores das suas roupas e adornos são de uma exuberância que contrasta com o vestuário comum dos membros da comunidade. (…)

A ordem que assinala o início do ritual é dada pelos bombos, organizando-se um novo cortejo até ao Largo do Padrão, onde serão lidos os testamentos da Comadre e do Compadre. Os Caretos seguem à frente, seguidos dos representantes dos grupos, e por fim os tocadores e os acompanhantes, população e forasteiros. (…)

No Largo do Padrão foi montado um palco improvisado, onde os Compadres e as Comadres tomam os seus lugares dando início à leitura dos testamentos. O texto do testamento é composto por três partes; a introdução, composta por quadras alusivas ao ciclo do Carnaval e pela identificação da(o) testamenteira(o); as “deixadas” ou quadras dedicadas a todos os rapazes e raparigas solteiras e o final, alusivo ao fim da Comadre e do Compadre, anunciando a morte e rebentamento pelo fogo.
Com a fome que trazeis
Passais a vida a ladrar
Comeis a burra inteirinha
Nem a rata vai escapar.

Para manter a tradição
E o Carnaval não findar
Vamos repartir a burra
Para a boca vos calar.
O final de cada verso é sempre sinalizado com o rufar dos bombos. O texto é sarcástico, jocoso e vernáculo, recorrendo ao uso de alguns palavrões e abordando sobretudo os defeitos de carácter e de comportamento, tendo como acentuação a vertente sexual. (…)

O texto dos Compadres acentua igualmente os defeitos de carácter e os comportamentos das raparigas, mas tem mais incidência nos aspectos da vida sexual, utilizando uma linguagem mais jocosa, recorrendo ao uso de palavrões e dando-lhe uma forma mais grotesca do que o das Comadres, mas essa construção verbal é construída conscientemente.
Como já estavam há espera
Está cá o fanfarrão
Para dar carninha a todas
E manter a tradição.

A todas vamos dar carne
Pois é isso que elas querem
Não importa de quem seja
Consolar-se elas preferem.
Os testamentos carnavalescos no uso de linguagem jocosa, nas injúrias e nos palavrões, que constituem as “deixadas”, remetem sempre para um paralelismo entre as características do beneficiário e o objecto de partilha. Para os nossos informantes o significado deste ritual é “mais um gladiar entre homens e mulheres”, elegendo como bem de partilha, o burro e a burra, num paralelismo masculino/feminino que acentua as relações sociais e simbólicas entre pares de opostos. A figura do animal parece adquirir um duplo significado: o de símbolo bíblico da humilhação e da docilidade e, a do corpo grotesco cómico decepado, quando valorizadas as partes sexuais, objecto de partilha.
É o Paulo já se vê,
Vai repartir a burrinha,
Fica com a melhor parte,
Essa será a ratinha.


A audiência, composta por pessoas de vários grupos etários, reage pelo riso ao desfilar dos versos, contrastando com a postura séria dos leitores. Os grupos de rapazes e raparigas vão partilhando entre si cumplicidades através da troca de olhares. Também é possível observar que o testamento dos Compadres provoca quase sempre mais gargalhadas na assistência que o das Comadres. (…) Após a leitura dos textos é organizado um cortejo, durante o qual a solenidade e contenção são assumidas pelos participantes que se dirigem para o sítio da Cruzinha, em Valverde, onde os bonecos serão consumidos pelo fogo. Os Caretos tomam a dianteira, seguidos dos Compadres e das Comadres. Os tocadores impõem uma batida lenta e compassada, como num cortejo fúnebre, seguidos pela população local e pelos forasteiros.

No lugar da Cruzinha, em Valverde, os bonecos armadilhados por efeitos pirotécnicos, vão rodopiando, produzindo ruído e chamas acompanhadas de sucessivas explosões e batidas dos tocadores, até ao estoiro final, provocando na assistência, sobretudo nas crianças, uma enorme alegria e algazarra que perduram na memória. (…)

Em Lazarim a imolação dos bonecos assinala o término do ritual da festa carnavalesca, seguindo-se-lhe o “banquete”, espaço de confraternização entre os membros da comunidade e os forasteiros, através da comensalidade. O rito de passagem está concluído, mas o processo de reinvenção da tradição inseriu novos elementos à festa, o concurso de máscaras. O concurso é organizado pela Casa do Povo para premiar e incentivar os artesãos de máscaras de madeira, e manter a continuidade e a tradição. Este é um dos momentos da festa em que a audiência é essencialmente composta pelos membros da comunidade, artesãos e seus familiares. O júri do concurso é constituído por pessoas convidadas, exteriores à comunidade. Os prémios atribuídos contemplam a melhor máscara no seu conjunto (fato e máscara), a melhor máscara de madeira, a primeira máscara, e prémios de participação, como incentivo e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido. Durante o concurso a maior parte dos visitantes dispersa-se pelos lugares onde são oferecidos os “banquetes”.

No Largo da Vila saboreia-se o caldo de farinha, e no Largo da Casa do Povo a feijoada. A história a que remete a origem do banquete comunitário celebra a abundância do grupo social, de tal forma que se permitem a convidar os vizinhos e os forasteiros para o seu banquete. (…) o Carnaval de Lazarim remete-nos para um contexto rural de formação cristã, e o seu ritual para uma pândega libertadora, onde rapazes e raparigas cumprem o seu papel de herdeiros de uma paródia burlesca. (…)

Dulce Simões, in Carnaval em Lazarim: Máscaras, Testamentos e Práticas Carnavalescas

10 fevereiro 2018

Rock



Champagne & Reefer, por Buddy Guy e The Rolling Stones



Hotel California, pelos Eagles



10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, a obra-prima de José Cid