21 setembro 2017

Demarcação, já!

Canção a favor da demarcação das terras indígenas no Brasil, gravada numa ocasião em que os direitos dos índios brasileiros são seriamente postos em causa. Por exemplo, foi noticiada muito recentemente a provável chacina de um grupo de índios não-contactados na Amazónia

18 setembro 2017

Um cachimbo angolano

Cachimbo, de um escultor impossível de identificar, da província de Benguela, Angola. Existe, no boné da figura masculina, uma assinatura ilegível, que é certamente a assinatura do artista. As cabeças das figuras mexem-se. Real Museu da África Central, Tervuren, Bélgica

16 setembro 2017

Prémios Ig Nobel 2017

Desta, nem Erwin Schrödinger se lembrou: um gato pode ser sólido e líquido ao mesmo tempo? (Foto: g-stockstudio/iStockphoto)

Existem os prémios Nobel, cujos galardoados para 2017 só serão conhecidos lá mais para o fim do ano, e existem os prémios anti-Nobel, chamados prémios Ig Nobel, cujos galardoados foram agora tornados públicos, numa cerimónia ocorrida no Teatro Sanders da Universidade de Harvard, Estados Unidos, no dia 14 de setembro de 2017. Durante a cerimónia foi estreada uma ópera chamada Ópera da Incompetência, sobre o princípio de Peter e o efeito de Dunning-Kruger, que tentam explicar porque é que as pessoas incompetentes atingem o topo da carreira. Os galardoados com o prémio Ig Nobel 2017 receberam um prémio de 10 biliões de dólares do Zimbabwe, cujo valor real é de alguns cêntimos.

Os prémios Ig Nobel são atribuídos todos os anos pela revista humorístico-científica Annals of Improbable Research, que tem como lema «Investigação que faz rir primeiro e pensar depois». Os galardoados com o prémio Ig Nobel 2017 foram os seguintes:

Prémio Ig Nobel 2017 da Física — Marc-Antoine Fardin, por se servir da dinâmica dos fluidos para resolver a questão "Poderá um gato ser sólido e líquido ao mesmo tempo?";

Prémio Ig Nobel 2017 da Paz — Milo Puhan, Alex Suarez, Christian Lo Cascio, Alfred Zahn, Markus Heitz e Otto Braendli, por demonstrarem que tocar um didgeridoo (instrumento de sopro dos aborígenes australianos) é eficaz no tratamento da apneia obstrutiva do sono e no ressonar;

Prémio Ig Nobel 2017 da Economia — Matthew Rockloff e Nancy Greer, pelas suas experiências a respeito da influência do contacto com um crocodilo vivo sobre a vontade de participar em jogos de azar;

Prémio Ig Nobel 2017 da Anatomia — James Heathcote, pelo seu estudo médico "Porque é que os homens idosos têm orelhas grandes?";

Prémio Ig Nobel 2017 da Biologia — Kazunori Yoshizawa, Rodrigo Ferreira, Yoshitaka Kamimura e Charles Lienhard, pela sua descoberta de um pénis feminino e uma vagina masculina em insetos de uma caverna;

Prémio Ig Nobel 2017 da Dinâmica dos Fluidos — Jiwon Han, por estudar a dinâmica do derrame de líquidos, ao descobrir o que acontece quando uma pessoa anda para trás com uma chávena de café na mão;

Prémio Ig Nobel 2017 da Nutrição — Fernanda Ito, Enrico Bernard e Rodrigo Torres, pelo primeiro relato da existência de sangue humano na dieta dos morcegos vampiros de pernas peludas;

Prémio Ig Nobel 2017 da Medicina — Jean-Pierre Royet, David Meunier, Nicolas Torquet, Anne-Marie Mouly e Tao Jiang, por utilizarem uma tecnologia avançada de imagiologia cerebral para medirem até que ponto algumas pessoas não gostam de queijo;

Prémio Ig Nobel 2017 da Cognição — Matteo Martini, Ilaria Bufalari, Maria Antonietta Stazi e Salvatore Maria Aglioti, por demonstrarem que muitos gémeos idênticos não conseguem distinguir-se visualmente entre si;

Prémio Ig Nobel 2017 da Obstetrícia — Marisa López-Teijón, Álex García-Faura, Alberto Prats-Galino e Luis Pallarés Aniorte, por mostrarem que um feto humano reage mais fortemente à música tocada eletromecanicamente dentro da vagina da mãe, do que à música tocada eletromecanicamente sobre a barriga da mãe. Ao seu dispositivo musical vaginal puseram o nome de "babypod".

09 setembro 2017

Peguei na Serra da Estrela

Peguei na Serra da Estrela
para serrar uma cadeira
e apanhei um nevão
numa serra de madeira.

Com as linhas dos comboios
bordei um lindo bordado,
quando o comboio passou
o pano ficou rasgado.

Nas ondas do teu cabelo
já pesquei duas pescadas.
Olha para as ondas do mar,
como estão despenteadas.

Guardo o dinheiro no banco,
guardo o banco na cozinha.
Tenho cem contos de fadas,
que grande fortuna a minha.

Com medo que algum ladrão
um dia me vá roubar,
mandei pôr na minha porta
três grossas correntes de ar.

Encomendei um cachorro
naquela pastelaria;
quem havia de dizer
que o maroto me mordia?!

Apanhei uma raposa
no exame e estou feliz:
vejam que lindo casaco
com a sua pele eu fiz.

Entrei numa carruagem
para voltar à minha terra,
enganei-me na estação
e desci na Primavera!

Luísa Ducla Soares, escritora portuguesa


(Foto: José Varela)

03 setembro 2017

Johann Nepomuk Hummel

Concerto para bandolim em sol maior S. 28 (número 28 do catálogo elaborado por Joel Sachs), de Johann Nepomuk Hummel (1778–1837), por André Saint-Olivier, em bandolim, e a Orquestra de Câmara de Jean-François Paillard dirigida por Jean-François Paillard

Johann Nepomuk Hummel foi um compositor nascido em 1778 na cidade de Bratislava, que era então parte do Reino da Hungria, o qual se encontrava subordinado ao poder dos Habsburgos, que reinavam na Áustria. Diz-se, por isso, que ele era austríaco. Se fosse hoje, seria eslovaco. Faleceu em Weimar, na Alemanha, em 1837.

Johann Nepomuk Hummel foi aluno de Mozart, entre outros grandes mestres, e amigo pessoal de Beethoven. Distinguiu-se como pianista, um dos maiores do seu tempo, e mostrou-se muito interessado na guitarra e outros instrumentos de corda dedilhada, que também tocava com grande proficiência. Compôs numerosas obras dos mais diversos géneros, sobretudo para piano, mas não compôs uma única sinfonia. A sua música inseria-se na corrente clássica, evoluindo na continuidade da música de Haydn e de Mozart. Ao mesmo tempo, o revolucionário Beethoven rasgava o caminho de uma nova corrente musical, a corrente romântica. Com o triunfo do Romantismo sobre o Classicismo ao longo do séc. XIX, graças ao próprio Beethoven, Liszt, Schumann e muitos outros, a música de Hummel passou a ser considerada antiquada e mergulhou no quase esquecimento. De qualquer modo, enquanto foi vivo, Johann Nepomuk Hummel foi muito apreciado como compositor e muito aclamado como pianista.

Nos últimos anos tem-se assistido à redescoberta da música de Johann Nepomuk Hummel. As gravações e os concertos multiplicam-se pelo mundo. As rádios clássicas também vão passando cada vez mais música dele, sobretudo alguns dos seus concertos para piano e o seu concerto para trompete, que é talvez a sua obra mais popular. Todas as rádios clássicas? Não. Tal como a aldeia do Astérix, a Antena 2 resiste, insistindo em ignorar a música de Johann Nepomuk Hummel. Só por milagre é possível ouvir nesta rádio pública portuguesa alguma peça dele, e quando passa é sempre o concerto para trompete e é sempre na interpretação de Wynton Marsalis. É claro que Marsalis não tem culpa nenhuma, ele é um extraordinário trompetista, que toca jazz com tanto à-vontade como toca música clássica. Não é o Wynton Marsalis que ponho em causa, é a pouquíssima importância que a Antena 2 dá à música de Johann Nepomuk Hummel.


Concerto para trompete em mi bemol maior S. 49, de Johann Nepomuk Hummel (1778–1837), por Maurice André, em trompete, e o Ensemble Orquestral de Paris dirigido por Jean-Pierre Wallez

29 agosto 2017

Abel Manta


Vista de Gouveia, óleo sobre tela de Abel Manta. 1925, Museu Municipal Abel Manta, Gouveia, Portugal


Abel Manta (1888–1982) foi um pintor modernista português fortemente influenciado por Paul Cézanne (1839–1906), e também por Dórdio Gomes (1890–1976), de quem o pintor foi amigo ao longo de toda a sua vida. A obra de Abel Manta destaca-se pela luminosidade dos volumes e superfícies nas suas paisagens urbanas e naturezas-mortas, mas foi sobretudo no retrato que ela atingiu o seu apogeu, realçando o aspeto psicológico das personagens representadas. É considerado o maior retratista do seu tempo.


Jogo de Damas, óleo sobre tela de Abel Manta, que representa Clementina Carneiro de Moura, esposa do pintor, jogando damas com o irmão, 1927. Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


Autorretrato com Cachimbo, óleo sobre tela de Abel Manta, c. 1928. Col. João Abel Manta, Lisboa, Portugal


Rua de S. Bernardo, óleo sobre tela de Abel Manta, 1928. Col. João Abel Manta, Lisboa, Portugal


Natureza-Morta com Safio, óleo sobre tela de Abel Manta, 1931. Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, Portugal


Largo de Camões (Lisboa), óleo sobre tela de Abel Manta, 1964. Col. João Abel Manta, Lisboa, Portugal

27 agosto 2017

As férias do sr. Hulot

Les Vacances de Monsieur Hulot, um filme do realizador e ator cómico francês Jacques Tati (1907–1982), rodado em 1951 e 1952 na estância balnear de Saint-Marc-sur-Mer, departamento de Loire-Atlantique, França

25 agosto 2017

Castro Laboreiro

À direita, a porta norte do que resta do castelo de Castro Laboreiro; à esquerda, em último plano, a vila de Castro Laboreiro (Foto: Ventor)

Castro Laboreiro é uma antiquíssima povoação situada num planalto com o mesmo nome e pertencente ao concelho de Melgaço. Está integrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

A antiguidade de Castro Laboreiro está expressa no seu próprio nome. Com efeito, castro é o nome dado a uma povoação fortificada que já existia vários séculos antes da chegada dos romanos. Por outro lado, a grande abundância de antas ou dólmenes na região atestam a existência de populações muito mais antigas ainda, as quais ergueram essas extraordinárias estruturas megalíticas por volta do 5.º milénio antes de Cristo.


A porta sul do que resta do castelo de Castro Laboreiro. A serra que se vê em último plano deve ser a do Soajo (Foto: Maravilhas do Gerês)

A vila de Castro Laboreiro já foi sede de município entre 1271 e 1855, com tribunal, cadeia, pelourinho e paços do concelho. O castelo, situado nas proximidades e agora em ruínas, é também muito antigo. Segundo Pinho Leal, deve-se aos romanos, mas provavelmente foi construído mais tarde, no tempo do Condado Portucalense.

O principal monumento situado no interior da vila de Castro Laboreiro é a sua igreja matriz. Dedicada a Nossa Senhora da Visitação, foi construída no séc. XII, em estilo românico, mas sofreu, ao longo dos séculos, diversas intervenções, que lhe alteraram o aspeto original. A torre da igreja, por exemplo, data do séc. XVIII.


Interior da igreja matriz de Castro Laboreiro. A nave única é em estilo românico, do séc. XII, mas os altares ao fundo são do séc. XVIII (Foto: Município de Melgaço)

Como a pastorícia foi uma das suas atividades económicas mais importantes, a região de Castro Laboreiro está polvilhada de povoações temporárias, chamadas brandas (umas) e inverneiras (outras). Ao todo são mais de 40 lugares, entre brandas e inverneiras. No verão, os pastores levavam os seus rebanhos para os pontos mais elevados, onde estavam os pastos mais frescos, e ficavam alojados nas brandas, de que o Curral do Gonçalo (a segunda povoação mais alta de Portugal) é um exemplo. No inverno, os pastores desciam aos vales, abrigados dos ventos gelados que costumam varrer o planalto, ficando alojados nas inverneiras, de que é exemplo a Assureira. Este movimento regular dos rebanhos e seus pastores, entre as brandas e as inverneiras, constitui a chamada transumância.


Ponte da Assureira ou de S. Brás, sobre o rio Barreiro, e uma azenha em segundo plano (Foto: Maria Cartas)

O planalto de Castro Laboreiro e serras envolventes (serras da Peneda e do Laboreiro) eram (e são) percorridos por alcateias de lobos. Para defenderem os seus rebanhos dos ataques dos lobos, os habitantes da região desenvolveram uma raça de cães robustos e valentes, que são os cães da raça chamada, precisamente, castro laboreiro. Inteligentes e rústicos, os cães da raça castro laboreiro eram muitas vezes deixados sozinhos no monte com o rebanho que guardavam, tal era a confiança que os pastores tinham neles. Os cães de castro laboreiro são muito fiéis e carinhosos para os seus donos, mas são hostis para os estranhos, embora não os agridam ativamente. São, por isso, excelentes cães de guarda, sobretudo para guardar quintas e casas isoladas. Não são, de maneira nenhuma, cães para se ter num apartamento na cidade, dada a sua corpulência e necessidade de muito espaço para se movimentarem.


Um cão pastor da raça castro laboreiro (Foto de autor desconhecido)


Cascata de Castro Laboreiro (Foto: João Paulo Galacho)

22 agosto 2017

Imagens falsas de Astronomia

Vê-se logo que esta imagem é falsa. Não existem cães na Lua. Mas mesmo que se retire o cão, a imagem continua a ser falsa. Com efeito, se repararmos na Terra, o nosso lindo planeta azul, ao fundo, veremos que ela se apresenta iluminada de cima para baixo. Contudo, as sombras na Lua mostram que esta se encontra iluminada da esquerda para a direita. Esta imagem é completamente falsa, mas que tem graça, tem... (Imagens da NASA sobrepostas por um desconhecido)


As imagens que ilustram este artigo foram retiradas de uma página na internet da revista americana Forbes. Outras imagens se podem ver lá. Não há dúvida de que se trata de fotografias impressionantes, mas são todas falsas menos uma.

As imagens na internet atingiram uma sofisticação tal, que cada vez se torna mais difícil distinguir as verdadeiras das falsas. O Photoshop e outros programas de edição de imagem conseguem fazer autênticos milagres de falsificação.

Se não quisermos ser enganados por imagens astronómicas falsas fingindo que são verdadeiras, só nos resta vê-las em páginas de fontes de confiança, como a NASA (Agência Espacial Norte-Americana), a ESA (Agência Espacial Europeia) ou alguma universidade ou instituto de investigação. A NASA, concretamente, publica diariamente uma imagem diferente (fotografia ou vídeo) na sua página Astronomy Picture Of The Day (APOD).


Por muito bonita que seja, esta imagem é falsa. O reflexo da Lua na água do lago está sobreposto ao reflexo da paisagem arborizada (Imagem de autor desconhecido)


Esta imagem só não é verdadeira num aspeto: as folclóricas cores variadas das estrelas, que formam um arco em resultado do longo tempo de exposição. Na vida real, as estrelas e os planetas apresentam-se brancos no céu noturno, com exceção do planeta Marte, que se apresenta avermelhado (Imagem manipulada por Justin Ng)


Esta imagem empresta uma aura de grande mistério às pirâmides do Egito, mas é falsa, evidentemente (Imagem de autor desconhecido)


A imagem anterior resulta da sobreposição destas duas fotografias reais (Foto da esquerda: Waldemar Weiss. Foto da direita: Hubble Legacy Archive)


Esta imagem é VERDADEIRA. Foi tirada em 2012, por ocasião de um eclipse anular do Sol, com uma teleobjetiva (Foto: Colleen Pinski)

17 agosto 2017

O pequeno Hiawatha

Little Hiawatha, um filme de desenhos animados de Walt Disney datado de 1937

14 agosto 2017

A Fonte

La Source, óleo sobre tela do pintor neoclássico francês Jean-Auguste Dominique Ingres (1780–1867). Musée d'Orsay, Paris, França

10 agosto 2017

O naufrágio do Lusitania


The Sinking of tne Lusitania, filme de animação de Winsor McCay, 1918. Filme mudo e legendado em inglês

RMS Lusitania foi o nome de um grande paquete transatlântico inglês (um dos dois maiores do seu tempo), que um submarino alemão criminosamente afundou no dia 7 de maio de 1915 a sul da costa da Irlanda. Estava-se em plena 1.ª Grande Guerra e a Alemanha tinha interditado toda a navegação em volta das Ilhas Britânicas. O RMS Lusitania tinha saído de Nova Iorque com destino a Liverpool, com 1962 passageiros e tripulantes a bordo, e afundou-se em dezoito minutos. Morreram 1198 pessoas.

O naufrágio do RMS Lusitania, ocorrido apenas três anos depois do do RMS Titanic, serviu de inspiração ao norte-americano Winsor McCay para um filme de animação. Winsor McCay foi o primeiro grande autor de animação da história do cinema e fez dos desenhos animados uma verdadeira arte. The Sinking of the Lusitania foi o último e o melhor de todos os seus filmes. Demorou dois anos a ser feito e implicou a realização de 25 mil desenhos. Foi estreado em 1918.

07 agosto 2017

Castelo Rodrigo

O escudo invertido, dito "difamado", da vila de Castelo Rodrigo. Este brasão de pernas para o ar foi atribuído pelo rei D. João I, como castigo pelo facto de a vila ter tomado partido por Castela na crise de 1383–1385 (Gravura do livro As Cidades e Villas da Monarquia Portugueza que Teem Brasão d'Armas, 1865, de Inácio de Vilhena Barbosa)

Se o concurso da RTP intitulado 7 Maravilhas de Portugal®  Aldeias tivesse lugar 30 anos atrás, de certeza absoluta que Castelo Rodrigo não só não iria à final, como nem sequer seria levada a concurso. Não poderia, de maneira nenhuma, competir com Podence, em Trás-os-Montes, com Alte, no Algarve, ou com os Biscoitos, na Ilha Terceira.

Quando fui pela primeira vez a Castelo Rodrigo, há muitos anos, fiquei aterrado com o que encontrei. A velha vila fortificada nas terras de Riba Coa era então uma ruína tão degradada e tão miserável, que só apetecia fugir dali para fora. As pouquíssimas pessoas que ainda habitavam aquelas casas decrépitas eram pessoas de muita idade que, por uma razão ou por outra, não se tinha mudado lá para baixo, para a sede de concelho, a vila de Figueira de Castelo Rodrigo. Porque teimavam elas em permanecer em local tão ermo e tão triste? A ruína e o ar de abandono de Castelo Rodrigo eram verdadeiramente impressionantes. Tudo indicava que, assim que os seus idosos moradores morressem, Castelo Rodrigo ficaria sendo uma vila fantasma, com o mato a crescer por entre as pedras das ruínas.


A antiga sinagoga de Castelo Rodrigo, que deu lugar a um poço-cisterna depois da expulsão dos judeus por D. Manuel I (Foto: Nmmacedo)

Julgo que foi em 1995, mais ou menos, que arrancou um programa de Recuperação de Aldeias Históricas de Portugal, o qual visou recuperar diversas localidades de importância histórica no interior centro do país. A velha vila de Castelo Rodrigo foi uma das aldeias recuperadas no âmbito do programa, juntamente com Almeida, Belmonte, Castelo Mendo, Castelo Novo, Idanha-a-Velha, Linhares, Marialva, Monsanto, Piódão, Sortelha e Trancoso. O que aconteceu a estas localidades parece quase um milagre. No caso de Castelo Rodrigo (e também no de Castelo Mendo) foi mesmo um milagre. Foi um milagre laico e feito pelos homens, mas foi um milagre, mesmo assim.


A igreja matriz de Castelo Rodrigo, dedicada a Nossa Senhora de Rocamador, ou de "Reclamador" como também lhe chamam. É uma igreja medieval de estilo românico, com diversas intervenções posteriores. Agora pergunto: qual é maior, a igreja ou a sua torre? Ao fundo, à esquerda, avista-se o pelourinho de Castelo Rodrigo, do tipo gaiola (Foto: CCDRC)

Ora vamos lá ver se nos entendemos. O modo de vida que encontrei em Castelo Rodrigo na minha primeira visita praticamente já não existe. O séc. XXI também acabou por chegar a Castelo Rodrigo. Agora, a antiga vila voltou-se para o turismo e para o mercado das segundas habitações, como aconteceu a muitas outras localidades portuguesas. Em vez dos velhos moradores, que tristemente esperavam a chegada da sua própria morte numa vila também ela moribunda, novas gentes, mais jovens e mais urbanizadas (ou mesmo 100% urbanas), percorrem agora as suas renovadas ruas e calçadas. Será que podemos ainda dizer, como faz a RTP, que Castelo Rodrigo é uma "aldeia autêntica"? Permito-me duvidar. Podence, sim, é uma aldeia autêntica. Belmonte é também uma vila autêntica. Agora Castelo Rodrigo… Enfim, talvez se possa falar numa nova autenticidade, para o caso de Castelo Rodrigo. É uma autenticidade do séc. XXI.


Ruínas do palácio de Cristóvão de Moura em Castelo Rodrigo. Cristóvão de Moura foi um dedicado apoiante de Filipe II de Espanha (que veio a ser Filipe I de Portugal), aquando da crise dinástica aberta pelo desaparecimento do rei D. Sebastião em Alcácer Quibir. Como prémio, Filipe I nomeou-o conde de Castelo Rodrigo e Filipe II (Filipe III de Espanha) nomeou-o marquês, também de Castelo Rodrigo. Depois da Restauração da Independência em 1640, o povo da vila destruiu o palácio, que ficou como se vê. Em primeiro plano, na imagem, veem-se amendoeiras floridas (Foto: Município de Figueira de Castelo Rodrigo)

04 agosto 2017

Fotógrafo de Viagens do Ano 2017

Fotografia vencedora do concurso "Fotógrafo de Viagens do Ano 2017". Categoria: Natureza. Local: Rancho de Aguirre, Colima, México. «Uma poderosa erupção ilumina as vertentes do vulcão Colima, no México, em 13 de dezembro de 2015. Eu estava na cidade de Comala quando subitamente vi uma incandescência sobre a cratera do vulcão e comecei a fotografar. Alguns segundos mais tarde, uma poderosa explosão vulcânica expeliu uma nuvem de cinzas e um enorme raio iluminou a maior parte da escura cena. Foi um dos momentos mais excitantes da minha vida». (Foto e legenda: Sergio Tapiro Velasco)


A revista National Geographic acaba de revelar os resultados do concurso Fotógrafo de Viagens do Ano 2017. A fotografia vencedora mostra um vulcão sendo atingido por um raio, de Sergio Tapiro Velasco, que vale ao seu autor uma viagem de 10 dias às Ilhas Galápagos. Os autores das fotografias premiadas seguintes recebem prémios pecuniários.

As fotografias premiadas podem ser vistas na página da National Geographic que é dedicada ao concurso, de onde poderão ser quase todas descarregadas, a fim de serem usadas como wallpapers em computadores, tablets e smartphones. Vale a pena vê-las.


Fotografia vencedora das escolhas do público na categoria Natureza. Local: Equador. Um colibri alimenta-se do néctar de uma flor na floresta equatoriana. (Foto: Hymakar Valluri)


Fotografia vencedora das escolhas do público na categoria Pessoas. Local: Munshiganj, Dhaka, Bangladesh. «Esta fotografia foi tirada das margens do rio Dhaleswari em Munshiganj, Bangladesh, quando carregadores transportavam areia para descarregá-la num local próximo do rio». (Foto e legenda: Tanveer Hassan Rohan)

02 agosto 2017

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004)



(Foto de autora desconhecida)

30 julho 2017

Música vintage de Angola

Zé Salambinga, por Elias diá Kimuezu ("Elias das Barbas"), mestre da música popular de Luanda e mestre da língua quimbundo

Um dos temas mais frequentes na música popular urbana angolana era o do desaparecimento de pessoas. Habitualmente, eram homens que desapareciam, por terem sido levados pela PIDE/DGS para nunca mais serem vistos. Não é bem este o caso desta canção do falecido Urbano de Castro, chamada Rosa Maria, em que a pessoa desaparecida é uma mulher. Seja como for, o tema do desaparecimento está presente

Um outro tema que era frequente na música urbana de Angola era o da morte de alguém muito querido. É o caso desta canção pelo conjunto Jovens do Prenda, chamada Kikola ("Não pode ser"): Mama wadikwata mukondo we / Jipange joso jidil'o ("A mãe está prostrada / Os irmãos todos choram", em tradução aproximada)

Jihenda ya Mama ("Amor de mãe"), por António Paulino

Kalumba ("Menina"), uma canção de amor por Fernando Sofia Rosa

Merengue Rebita, por Paulino Pinheiro, uma combinação de dois ritmos: o merengue afro-caribenho e a rebita luandense

Bartolomeu, de Prado Paim, é outra canção sobre o tema do desaparecimento de uma pessoa: 'suku ni mwanya / ngenda ubeka wami / Kamba dya muxima, / se Kalunga wamwambata ("De noite e de dia / ando sozinho. / Amigo do coração, / (não sei) se a morte o levou"). A música desta canção, exuberante e irresistível, contrasta de forma extrema com a trágica letra

Ressurreição, de Elias diá Kimuezu, é outra canção que versa o tema da morte

28 julho 2017

Tradição e modernidade — 5

Numa aldeia do Parque Indígena do Xingu, no estado do Mato Grosso, Brasil, as mulheres dominam o espaço e desfilam num ritual Yamurikumã, enquanto os homens, postos de lado, filmam e fotografam com ar sério e compenetrado (Foto de autor desconhecido)

Por ocasião do ritual Yamurikumã, as mulheres índigenas brasileiras "dominam o poder público e ocupam o pátio da aldeia. Assumem atividades dos homens, ameaçam aqueles que não cumprem seus deveres, batem neles de brincadeira e lutam o huka-huka [combate corpo a corpo tradicional do Xingu], uma prerrogativa masculina. Também pintam a parte superior do tronco, área que normalmente só os homens pintam, cantam versos de canções masculinas e usam os belos cocares de penas reservados aos homens" (in O dia em que elas tomam o poder).

25 julho 2017

A rainha virtuosa e as duas irmãs

Primavera, desenho de Laura Costa (1910–1992) restaurado digitalmente por Jorge Silva


Um rei mancebo, que não tinha conversação de mulher alguma, requerido dos seus que se casasse, com desejo de achar na sua propria terra mulher para isso, refusava o casamento de muitas princezas forasteiras que lhe traziam. E queria que a mulher fosse de virtuosos costumes, claro sangue e boa vida, sem respeito a fazenda, pelo que por dote queria que tivesse estas tres cousas. E andando com esta imaginação passeando um dia per uma rua, sahiram certas mulheres moças todas fermosas a uma janella, e quando elrey passou ficavam fallando umas com outras, que elrey as ouviu, e não entendeu o que diziam, e por saber o que era chamou a si fidalgos que estiveram mais perto. Foi-lhe respondido:

— Senhor, uma disse, que se ella casasse com vossa alteza, se estrevia a fazer de suas mãos lavores de ouro e seda, tão ricos e tanto em vosso serviço, que se se avaliassem valessem tanto dinheiro que bastasse para gasto da mesa. E a outra respondeu que aquillo era muito, mas que se ella tivesse tal dita que casasse com elle, lhe faria camisas e outras cousas de que tivesse necessidade. E a outra respondeu: Ambas não sabeis o que dizeis, nem val todo vosso lavor tão estimado tanto que baste para vossa mantença; eu vos digo o que farei: Se chegasse a estado de casar eu com elrey, de seu ajuntamento lhe pariria dois filhos fermosos como o ouro e uma filha mais fermosa que a prata, o qual é prometter que as mulheres podem cumprir.

Elrey folgou de o ouvir, e notando as considerações em que ellas estavam propoz de casar com uma d'ellas. Visto isto mandou chamar mulheres de titulo, donas e senhoras, a quem deu conta, diante das quaes quiz fallar com estas donzellas para se determinar qual tomaria por mulher. E logo fez vir ante si a mais velha, que vista foi julgada por muito fermosa; elrey lhe preguntou:

— O que promettestes fazer estando á vossa janella se eu casasse comvosco, estrevei-vos a cumpril-o?

Ella se envergonhou, e mudada a côr disse:

— Farei em seu serviço tudo o que minhas forças bastarão.

Elrey a fez recolher e vir a segunda; porém nas perguntas aconteceu assi como á primeira, pelo que elrey a fez recolher e vir a menor, que claramente mostrou ser ella a mais fermosa de todas. Elrey lhe perguntou se se estrevia a cumprir o que promettera, e ella muito envergonhada respondeu:

— Senhor, si; com as condições que então disse.

Coube isto em tanta graça a elrey, que elle a recebeu por mulher e se fizeram grandes festas que duraram muito. E elrey trouxe para casa da rainha as duas irmãs que a acompanhassem, e ellas foram servidas e tratadas como irmãs da rainha sua mulher. Elrey fez vida mui amorosa com sua mulher, porém durou pouco tempo, porque com inveja que tinham do estado da rainha ambas de um conselho lhe buscavam todo o damno e como a poder empecer e tirar da alteza e honra em que estava. De sua industria, com falsas testemunhas n'aquelle parto e em outros dois adiante, pubricaram com falsidade que a Rainha parira monstros peçonhentos e não criatura, e os fizeram ventes aos que tinham razão de os vêr, de que o reino todo se alterou, e elrey aborreceu tanto a sua mulher, que lançando-a fóra de casa não lhe permittiu em todo o reino logar nenhum em que tivesse repouso, e as irmãs lhe buscavam tanto mal, que o faziam a quem a recolhia; de modo que a rainha veiu a ser a mais pobre e abatida mulher de serviço que em seu tempo houve na terra, porém permanecendo em toda limpeza se fingiu forasteira e por mulher de serviço a recolheram em um mosteiro de freiras. As irmãs procuravam illicitamente de vêr se podiam agradar a elrey, o qual dissimulando e apartando-se da conversação d'ellas fazia que as não entendia, e quando se achava só dizia mal da fortuna que lhe apartava da sua presença a coisa do mundo que elle mais amava, e para recreação do desgosto que trazia comsigo não tinha outra consolação senão ir muitas vezes em um barco pelo mar ao longo da terra por esparecer. Algumas vezes pescava e outras ia á caça ao longo de algumas ribeiras. E costumando isto, aconteceu que um dia indo ao longo de uma ribeira acima, viu á borda de agua uma casa feita de novo. E chegando perto, desejando saber cuja era, viu a uma janella um menino que seria de sete annos, de muito fermoso rosto, pobremente vestido, perguntou-lhe:

— Filho, quem móra n'esta casa?

E o menino como muito criança, disse:

— Senhor, mora meu pae, que não está aqui; se vossa mercê quer que chame minha mãe, virá logo.

E n'este tempo outro menino de menos edade dizia dentro:

— Senhora mãe, senhora mãe, aqui está um fidalgo á nossa porta.

E a esta conjuncção sahiu uma mulher á porta da rua com uma menina pela mão, pequenina, e disse:

— Senhor, que manda vossa mercê?

Elrey, que tinha pregados os olhos e o coração nos meninos que via, tendo no sentido que os filhos da rainha sua mulher já houveram de ser d'aquelle tamanho, lhe disse:

— Vejo estas casas novas ao longo d'esta ribeira, e estes meninos tão fermosos, folgaria de saber cujo isto é?

Ella respondeu:

— Senhor, as casas e os meninos são meus e de meu marido.

— Dona, as casas creio que serão; mas os meninos, sois já de dias, que parece não deveis de ter tão pequenos filhos. Dona honrada, sou Elrey, e quero saber cujas são estas casas e estes meninos.

Ella se humilhou muito e com os giolhos no chão, que ao que perguntava soubesse, que as casas eram suas, mas que os meninos ella não sabia cujos filhos eram mais que trazer-lh'os seu marido, que aquella manhã fôra ao mar e viria á noite. Então disse Elrey:

— Pois dizei-lhe que amanhã ao jantar vá ter commigo ao paço, e leve estas crianças para me dizer o que sabe d'ellas, que o hei-de esperar sobre mesa.

E ella assi lh'o prometteu. Ido elrey, como se metteu ao longo da ribeira, já ia acompanhado de muitos dos seus e iam buscando se descobririam alguma caça; sua alteza viu umas lapas que parecia que outro tempo foram pedreira e de dentro sahiu uma mulher, que trazia os cabellos muito grandes, soltos e pretos, e os vestidos muito rotos. E assi como ella sahiu viu a elrey e com muita diligencia se tornou a metter para dentro para se esconder; mas como foi vista, elrey a seguiu e asinha a alcançou:

— Quem sois? e porque estaes n'este ermo?

Ella que conheceu mui bem que era elrey o que lhe fallava, lhe disse:

— Para que quer saber vossa alteza a vida de uma mulher desventurada, que em penitencia de seus peccados a faz d'esta maneira, que agora vê?

Elrey, que viu que era conhecido d'ella, e que por muito que lhe rogou não quiz dizer quem era, desejoso de o saber a fez tomar por dois homens, lhe mandou dar um a capa de agua sua, e um sombreiro, que se cobrisse e a puzessem em ancas de uma mula, e que um escudeiro com muito resguardo a levasse ao paço, e sem que fosse vista de outra pessoa alguma a tivesse até que elle chegasse, o qual se fez assi. Ao outro dia, chegadas as horas de recolher á mesa, trouxeram aquella mulher por mandado de elrey, que de novo lhe perguntou quem era e porque andava d'aquella sorte; e ella cheia de lagrimas e soluços disse:

— Estando eu n'esta casa em muito viço, favorecida da rainha e de suas irmãs, ellas me apartaram um dia, e me disseram que sua alteza estava de parto, quando a primeira vez pariu, e que ellas tinham determinado lançar um grande sapo com as páreas quando deliberasse, para dizer que aquillo parira a rainha, e que eu com diligencia tomasse a criança, que ellas m'a dariam envolta em panos, que fosse lançar no mar, e que isto faziam, porque não acertasse de parir filhos como o promettera. Tomei a criança acabada de nacer, que era um filho, e logo em minha presença tiraram um grande sapo que tinham em uma panella, e o embrulharam com as páreas; e isto feito gritaram fingindo que isto era medo do sapo e lançaram a fugir e juntamente com ellas a parteira. E com esta revolta tive tempo para me sahir do paço levando a criança commigo, e quando me vi na rua encaminhei para o mar, e fui ter junto áquelle logar donde vossa alteza me achou; desembrulhei a criança, vi que era varão, e n'isto vi vir um velho pescador; deixei a criança embrulhada nos fatos como vinha e lancei a correr fugindo. Elle como me viu deixar aquelle vulto, foi vêr o que era, e como lh'o vi erguer do chão e leval-o para sua casa, tornei-me ao paço com o rosto ledo, e disse ás senhoras que o lançára no mar. Foram contentes do que eu disse que fizera, e d'esta maneira aconteceu outra vez no segundo parto, quando disseram que a Rainha parira uma cobra; fugindo todas, fugi eu tambem e levei o infante ao proprio logar donde levára o outro. Antes de outro anno, ou n'elle, a rainha veiu a parir outra vez; chegada a hora me deram outra criança, e fingiram como d'antes aver a rainha parido uma toupeira, que tinham para isto prestes; e no espanto e alvoroço d'isto, quando fugiram fugi eu e fui ter á borda da agua no logar donde deixei seus irmãos, e vi que levava uma menina. Esmoreci, e quando acordei achei o pescador commigo, e me dizia:

— Descoberta ha-de ser esta cousa a elrey.

E porque me temi que me buscasse no paço não quiz tornar a elle, e metti-me n'aquellas lapas, em que averá bem quatro annos que estou.

Elrey acabando de ouvir isto, ficou espantado das treições que as irmãs fizeram contra sua irmã, as quaes ambas foram chamadas e viram a donzella e entenderam tudo o que ella tinha dito, e como tudo era verdade não tiveram bocca com que o negar, e como que queriam faltar uma com a outra se chegaram a uma janella d'aquella sala que ia ter ao mar, e abraçando-se ambas se lançaram em baixo com tanta presteza que se lhe não pôde estorvar. Ainda a gente do paço não estava de todo socegada d'este alvoroço quando entrou pela porta o velho pescador e sua mulher; traziam no collo dois Infantes e a Infanta. E chegando ante elrey o velho se adiantou de sua companhia, e disse alto que todos o ouviram:

— Disseram que hontem passára vossa alteza pela porta da casa em que vivo, e vendo estes meninos perguntou cujos filhos eram, e porque minha mulher lhe não deu razão sufficiente, vossa alteza mandou que viesse eu aqui e os trouxesse, que queria saber cujos filhos eram tam fermosos meninos; pelo que vim e os trago commigo.

Ouvindo isto, e visto o que a donzella dissera todos os circumstantes a uma voz diziam que todos aquelles trez eram filhos delrey; e as donas todas da casa viram e conheceram todo o fato em que os infantes foram envoltos. Logo elrey mandou por todo o reino em busca da rainha, e que se publicassem as novas do achamento dos trez filhos infantes, e da treiçam das irmãs da rainha e sua morte. E foi ter esta nova ao Mosteiro onde a rainha estava; todos viam n'ella mais alegria, que em nenhuma outra pessoa, e foi tanta que suspeitaram o que era, e a Rainha vendo que já não era tempo de se encobrir, lhes manifestou e declarou a verdade.

Elrey mandou chamar toda a fidalguia da côrte e muitos senhores, que trouxessem suas mulheres, e com todos elles e ellas em grande festa levou a Rainha d'alli para o paço com tanto alvoroço de alegria como se então se casaram de novo.

Gonçalo Fernandes Trancoso (1520–1596), Contos e Histórias de Proveito e Exemplo (1575), Parte II, conto VII

22 julho 2017

Mensagem de paz


Uma borboleta pousa na espingarda de um militar português algures no Planalto dos Macondes, Cabo Delgado, Moçambique, ano 1972 (Foto: Manuel Correia de Bastos)

20 julho 2017

Diego el Cigala


Eu sei que vou te amar, de António Carlos Jobim e Vinícius de Moraes, por Diego el Cigala

Diego el Cigala, de seu nome próprio Diego Ramón Jiménez Salazar, é um cantor e autor de flamenco, cigano espanhol por nascimento e dominicano por naturalização. Qualquer que seja o género musical que interprete, é sempre flamenco o que ele canta. E como canta! Escutêmo-lo um pouco mais.


Amar y Vivir, por Diego el Cigala

Historia de un Amor, por Diego el Cigala

Soledad, por Diego el Cigala

Te Quiero, Te Quiero, por Diego el Cigala e Rosario Flores (filha de Lola Flores)