19 maio 2017

Parigi, o cara


Parigi, o cara, dueto do último ato da ópera La Traviatta, de Guiseppe Verdi (1813–1901), pelo tenor angolano Emanuel Mendes e a soprano cubana Yilam Sartorio, do Teatro Lírico Nacional de Cuba


Emanuel Mendes é um cantor de ópera angolano, que tem a voz de tenor e se formou em canto lírico em Cuba. Tem vindo a fazer uma carreira promissora, atuando em vários países e ganhando diversos prémios. Ultimamente tem estado em residência artística em Oldenburg, Alemanha.

Neste dueto, intitulado "Parigi, o cara", Emanuel Mendes contracena com a cubana Yilam Sartorio, no úlitmo ato da ópera La Traviatta, de Verdi, quando Violetta e Alfredo se encontram depois de uma longa separação. Este é um dueto que requer uma contida emoção, sem excessivos arroubos.

12 maio 2017

Crianças indígenas do Brasil


«O melhor do mundo são as crianças», escreveu Fernando Pessoa no seu famoso poema "Liberdade". Serão poucos, por certo, os que porão em dúvida esta afirmação do grande poeta. Com a sua pureza, a sua frescura e a sua ingenuidade, as crianças são, de facto, o melhor do mundo, qualquer que seja a sua cor, origem geográfica, etnia, etc.

Encontram-se aqui reunidas várias imagens de crianças índias brasileiras, que eu recolhi aqui e ali por essa internet fora. São imagens de curumins (meninos) e cunhatãs (meninas), pertencentes a diversas etnias indígenas do Brasil: Kamayurá, Pataxó, Ashaninka, Yanomami, Kayapó, Arawetê, etc. São imagens de crianças que merecem ter um futuro radioso e em paz, como todas as crianças do mundo. Assim os adultos o permitam.


(Foto de autor desconhecido)

(Foto: Ipojucan Ludwig)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto: Maria Rachel C. Pereira)

(Foto: Ruriana Alves Brás)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto: D' Jerá Sirlene)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto de autor desconhecido)

(Foto: Instituto Socioambiental)

(Foto de autor desconhecido)

06 maio 2017

A lenda da Ponte da Misarela


(Foto: mariofch)

A Ponte da Misarela, sobre o Rio Rabagão, que é afluente do Cávado, é uma ponte medieval que une a freguesia de Ruivães, concelho de Vieira do Minho, distrito de Braga, à freguesia de Ferral, concelho de Montalegre, distrito de Vila Real. Esta ponte une, portanto, o Minho a Trás-os-Montes. Em resultado da sua forma e da sua localização, esta ponte é objeto de uma lenda, a respeito da qual correm várias versões, que a associam ao diabo. Seguem-se quatro versões da lenda da Ponte da Misarela ou Ponte do Diabo.


(Foto: pegadas)

PRIMEIRA VERSÃO
Conta-se que há muitos anos, entre duas aldeias, Frades e Vila Nova, os moradores sentiam a necessidade de construir uma ponte, que serviria de passagem não só para eles mas também para os seus animais.

Após terminar, regressaram satisfeitos às suas casas. No dia seguinte, qual não foi o espanto, quando viram a ponte derrubada. Mas isto não foi motivo para desistirem e logo a reconstruíram novamente. Desta vez, enquanto a construíam, a ponte começou a estalar, a estalar, até que acabou por cair. Então as pessoas disseram umas para as outras:

— Isto só pode ser artimanha do diabo.

E de repente ouviram uma voz alta dizer:

— Nunca conseguireis segurá-la em pé.

Aflitos, correram a contar ao padre da freguesia o que ali se tinha passado. O padre, surpreendido e num tom animador, disse:

— Homens, voltai a reconstruí-la, porque desta vez não vai cair.

Pela trigésima vez, a ponte iria ser reconstruída, mas desta vez o padre acompanhou-os, levando um pão benzido debaixo do capote. Quando foi colocada a última pedra, a ponte começou a torcer-se, dando sinais de que iria cair. Então o padre lançou o pão a rebolar pela ponte e disse:

— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

O diabo, ao ouvir as palavras de Deus, fugiu e a ponte ficou sempre torta como se tivesse o ombro do diabo marcado quando estava a empurrá-la.

Não só aconteceu o milagre do pão como também desde esse dia outro milagre aconteceu: que é o de salvar os filhos das mães que tanto os desejavam e que nunca conseguiram dar-lhes vida, pois estes nasciam mortos após os seis ou sete meses de gravidez.

Uma mulher que já tivesse passado pela situação descrita e estivesse novamente grávida, deveria ir até à ponte da Misarela levando consigo dois acompanhantes e deveriam à meia-noite em ponto estar em cima do arco da ponte. Os acompanhantes teriam de se colocar um em cada entrada da ponte para impedirem que nenhum animal passasse, ainda que fosse um rato, pois se assim fosse o milagre não se realizava.

A mulher grávida e os acompanhantes teriam de esperar em cima da ponte até que alguém passasse para baptizar a criança ainda dentro da barriga da mãe. Para o baptizado, levavam um jarro e uma corda comprida e, quando aparecesse a primeira pessoa, pediam-lhe para ser o padrinho ou madrinha da criança.

Então o padrinho ou a madrinha teriam de cortar ao lado da ponte um ramo de oliveira. De seguida lançava o jarro preso na corda abaixo da ponte e com a água que conseguisse colher molhava o ramo e fazia uma cruz na barriga da mãe dizendo:

Eu te baptizo
em nome do Pai,
do Filho,
e do Espírito Santo.

Se fores rapaz,
teu nome será Gervás;
e se fores rapariga,
teu nome será Senhorinha.

Pelo poder de Deus
e da Virgem Maria,
um pai-nosso
e uma avé-maria.

Após o baptizado, regressavam a casa e dali a nove meses o bebé nascia com saúde. E não só nascia o primeiro filho como também outros que o casal desejasse sem necessidade de um tratamento hospitalar.

(Esta lenda é um testemunho vivo de um caso que se passou na minha família. A minha tia, Ana Barqueiro Pereira, não conseguia ter filhos e, deixando-se levar pela crença na ponte da Misarela, actualmente tem uma filha chamada Senhorinha e mais quatro filhos.)

Biblio AA. VV., — Literatura Portuguesa de Tradição Oral, s/l, Projecto Vercial — Univ. Trás-os-Montes e Alto Douro, 2003, p.L7


(Foto: mariofch)

SEGUNDA VERSÃO
Certo dia, um ladrão, fugindo de um par de guardas, deparou-se com um rio que não podia de forma nenhuma atravessar. É então que lhe aparece o diabo e lhe propõe um negócio:

— Farei surgir uma ponte sobre este rio que desaparecerá à tua passagem, contanto que me dês a tua alma.

O ladrão, olhando para trás com receio de que os guardas se aproximassem, viu ali uma solução para o seu problema e por isso aceitou de imediato.

— Acordo feito.

— Sempre que precisares, é só chamar pelo meu nome, que eu logo te acudirei — disse o diabo.

Fez então surgir a ponte, permitindo que o ladrão escapasse e fazendo-a logo a seguir evaporar-se no ar.

Mas a consciência do ladrão começou a pesar-lhe por ter dado assim de mão beijada a alma ao diabo e decidiu procurar um padre a quem contou tudo e a quem pediu ajuda. Combinaram ambos uma solução: o padre iria com ele até ao local da ponte e esconder-se-ia no momento em que o ladrão chamasse pelo diabo. E assim aconteceu.

O ladrão chamou pelo diabo e este voltou a fazer aparecer a ponte. Nesse momento, o padre lançou água benta sobre ela e sobre o ladrão, afugentando o diabo e abençoando a ponte para sempre, que ali ficou.

Conta-se que um dia, uma pobre mulher que entrara em trabalho de parto se foi abrigar debaixo da ponte para ter a criança e que, a dada altura, ouviu uma voz que lhe dizia que aquela criança seria abençoada e que, se nascesse menino, lhe teria de dar o nome de Gervásio e, se fosse menina, o nome de Senhorinha. O caso espalhou-se e muitas mulheres passaram a procurar o local para terem os filhos para que estes também nascessem abençoados.

Conta-se que naquela zona existem vários Gervásios e várias Senhorinhas, que fazem crer que uma lenda pode ser uma lenda, mas que pode ter algo de real e que o real e o imaginário muitas vezes se cruzam e fazem parte de um mundo que continua por descortinar.

Biblio AA. VV., — Literatura Portuguesa de Tradição Oral s/l, Projecto Vercial — Univ. Trás-os-Montes e Alto Douro, 2003, p.L8


(Foto: António Alves Chaves)

TERCEIRA VERSÃO
Diz-se que um padre, querendo fazer uma pirraça ao Diabo, se disfarçou em salteador perseguido pelas justiças de Montalegre, e foi certo dia, à meia-noite, àquele lugar para passar o rio. Como o não pudesse passar, por meio de esconjuros, invocou o auxílio do Inimigo. Ouve-se um rumor subterrâneo e eis que aparece, afável e chamejante, o anjo rebelde:

— Que queres de mim? — perguntou ele.

— Passa-me para o outro lado e dar-te-ei a minha alma.

Santanás, que antegozava já a perdição do sacerdote, estendeu-lhe um pedaço de pergaminho garatujado e uma pena molhada em saliva negra, dizendo:

— Assina!

O padre assinou. O Demo fez um gesto cabalístico e uma ponte saiu do seio horrendo das trevas.

O clérigo passa e, enquanto o diabo esfrega um olho, saca da caldeirinha da água benta, que escondera debaixo da capa de burel, e esparge com ela a infernal alvenaria, fazendo o sinal da cruz e pronunciando bem vincadas as palavras do exorcismo.

Santanás, logrado, deu um berro bestial e desapareceu num boqueirão aberto na rocha, por onde sairam línguas de fogo, estrondos vulcânicos e fumos pestilenciais. O vulgo das redondezas, na sua ignorância e ingenuidade, e não sabemos a origem, aproveita-se da ponte para ali exercer um rito singular.

Quando uma mulher, decorridos que sejam dezoito meses após o seu enlace matrimonial, não houver concebido, ou, quando pejada, se prevê um parto difícil ou perigoso, não tem mais que ir à Mizarela, à noite, para obter um feliz sucesso. Ali, com o marido e outros familiares, espera que passe o primeiro viandante. Este é então convidado para proceder à cerimónia, a qual consiste no baptismo in ventris do novo ou futuro ser. Para isso, o caminhante colhe, por meio de uma comprida corda com um vaso adaptado a uma das extremidades, um pouco de água do rio e com a mão em concha deita-a no ventre da paciente por um pequeno rasgão aberto no vestuário para este efeito, acompanhando a oração com a seguinte ladaínha:

Eu te baptizo
criatura de Deus,
Pelo poder de Deus,
e da Virgem Maria.

Se for rapaz, será ‘Gervás’;
se for rapariga, será Senhorinha.
Pelo poder de Deus e da Virgem Maria,
um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.

O barulhar iracundo da cachoeira no abismo imprime a estas cenas um cunho de tétrica magia. Segue-se depois uma lauta ceia, assistindo, geralmente, o improvisado padrinho. E o êxito é completo: um neófito virá alegrar a família. Claro que se na primeira noite não passar o viandante desejado, a viagem à Mizarela repetir-se-á até o cerimonial se realizar nas condições devidas.

De um dos lados ergue-se um enorme rochedo que o povo denominou "Púlpito do Diabo", por crer que o Demo vai ali pregar à meia-noite, quando as bruxas das redondezas se reunem em magno concílio…

Mário Moutinho e A. Sousa e Silva, O mutilado de Ruivães, in Serra do Gerês


(Foto: Carlos Rocha)

QUARTA VERSÃO

Um salteador das terras d'além Douro perseguido pela justiça embrenhou-se pelas serras de Traz-os-Montes, mas chegou á beira de uma torrente caudal e não pode passar. Para fugir offereceu a alma ao Diabo, e logo ali appareceu uma ponte, que se desfez logo que elle passou. Na hora da morte o salteador confessou-se, e o padre disfarçando-se em salteador chamou o Diabo, fez-lhe a mesma proposta, a ponte appareceu, e metteu-se por ella. Quando já estava no meio da ponte faz o signal da cruz, bota-lhe agua benta, e a ponte ficou firme até hoje. É de um só arco.

J. A. d'Almeida, Dicc. Chorographico, in Teófilo Braga, Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

30 abril 2017

Paz

Paix, por Catherine Ribeiro, cantora francesa de origem portuguesa, e o grupo Alpes, liderado por Patrice Moullet

25 abril 2017

Trovas do Mês de Abril

Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
Na esperança de um só dia.

Foram batalhas perdidas. Foram derrotas vitórias.
Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias)
Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida)
Por um só dia vivida.

Foi o tempo que passava como nunca se passasse.
E uma flauta que cantava como se a noite rasgasse
Toda a vida e uma palavra: liberdade que vivia
Na esperança de um só dia.

Musa minha vem dizer o que nunca então disse
Esse morrer de viver por um dia em que se visse
um só dia e então morrer. Musa minha que tecias
um só dia dos teus dias.

Vem dizer o puro exemplo dos que nunca se cansaram
musa minha onde contemplo os dias que se passaram
sem nunca passar o tempo. Nesse tempo em que daria
a vida por um só dia.

Já muitas águas correram já muitos rios secaram
batalhas que se perderam batalhas que se ganharam.
Só os dias morreram em que era tão curta a vida
Por um só dia vivida.

E as quatros estações rolaram com seus ritmos e seus ritos.
Ventos do Norte levaram festas jogos brincos ditos.
E as chamas não se apagaram. Que na ideia a lenha ardia
Toda a vida por um dia.

Fogos-fátuos cinza fria. Musa minha que cantavas
A canção que se vestia com bandeiras nas palavras:
Armas que o tempo tecia. Minha vida toda a vida
Por um só dia vivida.

Manuel Alegre


O capitão Salgueiro Maia no Largo do Carmo, em Lisboa, no dia 25 de abril de 1974 (Foto: Alfredo Cunha)

24 abril 2017

Acabamos sempre por esquecer tudo

Acabamos sempre por esquecer tudo.

O tempo gera a traição do abandono
e a memória não passa de disfarce.

O que fomos
o que vimos
o que fizemos
o que nos fizeram,
esquecemos tudo.

Acabamos sempre por esquecer tudo.

Esvaiem-se os anos e os corpos
na escuridão que nos persegue.
Mantemos os olhos maquinalmente abertos
mas já nada vemos
do que passou
do que foi.
Já nada persiste.

Restam, talvez, algumas sombras disformes
um ou outro eco mecânico
palavras despidas
o sonho
o pesadelo
um nevoeiro acre e sem fundo…

Esquecemos tudo
nas oportunistas mãos do vácuo,
irmão incestuoso da morte.

Como foi possível esquecer-te, João Cabral?
E tu, Miguel,
e tu, Lourenço,
e tu, povo angolano,
e tu, soldado da minha guerra?!

Os vermes parasitam nossas recordações
cantando hinos de decomposição.

Onde estão o medo, os soluços, o desespero, a raiva?!
Onde estão os mortos, os vivos, as vítimas, os algozes?!

Quase não acredito no que já esqueci.

Mário Brochado Coelho, in Cinco Passos ao Sol, Edições Afrontamento, Porto.


Militares portugueses destacados para a Guerra Colonial, algures no norte de Angola, 1963 (Foto: A. Leitão)

19 abril 2017

Sabedoria indígena brasileira

Palavras de Ailton Krenak, índio da tribo Krenak, do estado de Minas Gerais, um dos mais respeitados líderes indígenas do Brasil

16 abril 2017

Cristo ressuscitado

Cristo Ressuscitado, parte do grupo escultórico de mármore "Ressurreição", do escultor francês Germain Pilon (c. 1528 – 1590), Museu do Louvre, Paris

15 abril 2017

Ya murió mi redentor

Ya murió mi redentor, de frei Vicente Ortiz de Zárate (1750–1791), compositor barroco do México, por Carol Ann Allred, soprano, e o quarteto Chatham Baroque

14 abril 2017

Stabat Mater

Stabat Mater Dolorosa, do compositor renascentista francês Josquin des Prez (c. 1440 – 1521), pelo agrupamento La Chapelle Royale dirigido por Philippe Herreweghe 

09 abril 2017

Tomamos a vila depois de um intenso bombardeamento

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
— Dos que bóiam nas banheiras —
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?

Fernando Pessoa (1888–1935)


Em Aleppo, Síria (Foto: AFP)

07 abril 2017

Scott Joplin faleceu há cem anos

Pineapple Rag, de Scott Joplin, por um intérprete não identificado ao piano

No passado dia 1 de abril de 2017 completaram-se cem anos sobre o falecimento do compositor e pianista afro-americano Scott Joplin, com 49 anos de idade. Scott Joplin tornou-se famoso pelas suas composições do género ragtime, algumas das quais atingiram grande popularidade. Também compôs duas óperas, mas perdeu-se a primeira delas, chamada A Guest of Honor.

A segunda ópera de Scott Joplin chama-se Treemonisha, de cujo libreto ele também foi o autor, mas nunca conseguiu vê-la levada à cena. A ópera Treemonisha só foi estreada em 1972!

A ação desta ópera desenrola-se numa comunidade de antigos escravos que vive numa floresta isolada no sul dos Estados Unidos. A história tem como personagem principal uma jovem de 18 anos, chamada Treemonisha, a quem uma mulher branca ensinou a ler e que encabeça a sua comunidade contra a influência de charlatães, que se aproveitam da ignorância e da superstição das pessoas. Treemonisha é raptada e, quando está quase a ser atirada para o meio de um ninho de vespas, é salva pelo seu amigo Remus. A comunidade toma então consciência da sua própria ignorância e da importância da educação, escolhendo Treemonisha para sua professora e líder.


Cena da ópera Treemonisha, de Scott Joplin, por intérpretes não identificados

01 abril 2017

Há mais Castelos Brancos no mundo


Castelo Branco, ilha do Faial, Açores. Em primeiro plano, vê-se o morro de Castelo Branco, uma pequena península sobre a qual se ergueu uma fortificação que deu nome à freguesia. À direita, a ilha do Pico, com o seu imponente cone vulcânico que é o ponto mais alto de Portugal. Em último plano, recorta-se contra o céu o perfil irregular da ilha de São Jorge (Foto: Herbert Terra)


Vista aérea da freguesia de Castelo Branco, ilha do Faial, Açores, onde se localiza o aeroporto que serve a ilha. Ao fundo, o morro de Castelo Branco (Foto de autor desconhecido)


Há mais Castelos Brancos no mundo. Só em Portugal conheço mais dois e no Brasil deve haver mais alguns.

Além da cidade de Castelo Branco, na província dita da "Beira Baixa" ("Baixa" porquê? Acaso o cume da serra da Gardunha fica a uma altitude inferior à da cidade de Viseu, por exemplo?), há em Portugal pelo menos mais duas freguesias chamadas Castelo Branco. Uma fica na ilha do Faial, Região Autónoma dos Açores, e outra fica no concelho de Mogadouro, Trás-os-Montes.

É na freguesia de Castelo Branco, no concelho da Horta, que se situa o aeroporto que serve a ilha do Faial. O nome da freguesia deve-se à existência, no passado, de uma fortificação no cimo de uma pequena península, a qual contribuiu para a defesa da costa sul da ilha contra os ataques dos piratas. Esta fortificação foi construída com pedra vulcânica de cor clara, o que lhe valeu o nome de Castelo Branco. A própria península onde a fortificação se ergueu é constituída por rocha da mesma cor.

Quanto à freguesia de Castelo Branco, no concelho de Mogadouro, a sua origem é muito antiga, devendo-se o seu nome, certamente, à existência de um castro ou outra construção defensiva de cor clara, em contraste com a cor das rochas predominantes na região. O monumento que mais se destaca no Castelo Branco transmontano é, sem qualquer dúvida, um imponente palácio do séc. XVIII, que começou por pertencer aos Távoras e a seguir passou para as mãos dos Morais Pimentel. É o Solar dos Pimentéis, como lhe chamam. Na última vez em que passei por lá, já lá vão vários anos, o solar estava em restauro para vir a ser uma unidade de turismo rural. Entretanto parece que as obras pararam e o restauro ficou por concluir.


Solar dos Pimentéis, Castelo Branco, Mogadouro (Foto: Pedro Castro)


A freguesia de Castelo Branco, Mogadouro, coberta de neve

29 março 2017

Recortes chineses em papel



Proposta de candidatura à UNESCO dos recortes chineses em papel como Património Imaterial da Humanidade, que foi aprovada


A arte dos recortes em papel atingiu níveis extremamente refinados na China, onde ela é chamada jiǎnzhǐ (剪纸). Diz-se habitualmente que esta arte nasceu no séc. II, com a invenção do papel por Cai Lun, ou mesmo só no séc. VI, mas não falta quem refira que esta arte já existia anteriormente, quando os recortes eram feitos em couro, folhas de árvores, tecidos de seda, folhas de ouro e outros materiais.

Originalmente, os recortes em papel eram feitos na China com propósitos religiosos, de adoração aos deuses e de veneração aos antepassados. Atualmente, quase sempre são feitos para terem apenas uma função decorativa e destinam-se a exprimir emoções, anseios e desejos de felicidade. A cor vermelha é a mais usada, pois esta cor está associada na China à alegria e à sorte.


(Foto: U China Visa)

(Foto: U China Visa)

(Foto: Fanghong)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

26 março 2017

Uma pintura com tintas insólitas



A imagem acima mostra um aquartelamento do Exército Português em Quibala, Zaire, Angola, observado e pintado em 1966 a partir do morro existente no interior da própria Unidade. Pintura de Sérgio O. Sá, historiador e artista plástico, que foi primeiro-cabo enfermeiro da Companhia de Caçadores 1463.

Palavras do autor:
(…)por falta de materiais apropriados, teve de os produzir a partir de comprimidos de quinino diluídos, para os amarelos; tinta de escrever, para os azuis, cor que misturada com a dos quininos dava um esverdeado indefinido; anilina de pintar as botas, para os pretos; mercúrio cromo, para os vermelhos. O branco era o próprio papel suporte ou produzido com comprimidos de aspirina, em pasta. Os pincéis também foram improvisados a partir de pontas de cordel. Com o passar dos anos, as cores mais luminosas desapareceram, restando quase só o desenho da composição.
Sérgio O. Sá, in De Quibala a Malele (Norte de Angola) — No Decorrer de uma Guerra, edição do autor, pág. 289

20 março 2017

Oda a la Primavera

Primavera
temible,
rosa
loca,
llegarás,
llegas
imperceptible,
apenas
un temblor de ala, un beso
de niebla con jazmines,
el sombrero
lo sabe,
los caballos,
el viento
trae una carra verde
que los árboles icen
y comienzan
las hojas
a mirar con un ojo,
a ver de nuevo el mundo,
se convencen.
Todo está preparado,
el viejo sol supremo,
el agua que habla,
todo,
y entonces
salen todas las faldas
del follaje,
la esmeraldina,
loca
primavera,
luz desencadenada,
yegua verde,
todo
se multiplica,
todo
busca
palpando
una materia
que repita su forma,
el germen mueve
pequeños pies sagrados,
el hombre
ciñe
el amor de su amada,
y la tierra se llena
de frescura,
de pétalos que caen
como harina,
la tierra
brilla recién pintada
mostrando
su fragancia
en sus heridas,
los besos de los labios de claveles,
la marea escarlata de la rosa.
Ya está bueno!
Ahora,
primavera,
dime para qué sirves
y a quién sirves.
Dime si el olvidado
en su caverna
recibió tu vista,
si el abogado pobre
en su oficina
vio florecer tus pétalos
sobre la sucia alfombra,
si el minero
de las minas de mi patria
no conoció
más que la primavera negra
del carbón
o el viento envenenado
del azufre.

Primavera,
muchacha,
te esperaba!
Toma esta escoba y barre
el mundo.
Limpia
con este trapo
las fronteras,
sopla
los techos de los hombres,
escarba
el oro
acumulado
y reparte
los bienes
escondidos,
ayúdame
cuando
ya
el
hombre
esté libre
de miseria,
polvo,
harapos,
deudas,
llagas,
dolores,
cuando
con tus transformadoras manos de hada
y las manos del pueblo,
cuando sobre la tierra
el fuego y el amor
toquen tus bailarines
pies de nácar,
cuando
tú, primavera,
entres
a todas
las casas de los hombres,
te amaré sin pecado,
desordenada dalia,
acacia loca,
amada,
contigo, con tu aroma,
con tu abundancia, sin remordimiento
con tu desnuda nieve
abrasadora,
con tus más desbocados manantiales
sin descartar la dicha
de otros hombres,
con la miel misteriosa
de las abejas diurnas,
sin que los negros tengan
que vivir apartados
de los blancos,
oh primavera
de la noche sin pobres,
sin pobreza,
primavera
fragante,
llegarás,
llegas,
te veo
venir por el camino:
ésta es mi casa,
entra,
tardabas,
era hora,
qué bueno es florecer,
qué trabajo
tan bello:
qué activa
obrera eres,
primavera,
tejedora,
labriega,
ordeñadora,
múltiple abeja,
máquina
transparente,
molino de cigarras,
entra
en todas las casas,
adelante,
trabajaremos juntos
en la futura y pura
fecundidad florida.

Pablo Neruda (1904–1973), poeta chileno


19 março 2017

Dinu Lipatti



Concerto para piano e orquestra em lá menor, op. 16, do compositor norueguês Edvard Grieg (1843–1907), pelo pianista romeno Dinu Lipatti (1917–1950) e a Orquestra Philharmonia dirigida por Alceo Galliera


Completam-se hoje cem anos sobre o nascimento de Dinu Lipatti, um dos maiores pianistas do séc. XX, nascido na Roménia e falecido prematuramente aos 33 anos de idade, vítima de uma doença oncológica, o linfoma de Hodgkin.

Dinu Lipatti é um nome que eu conheço quase desde a minha infância, porque em minha casa existia uma coleção de dois discos de vinil, de formato pouco comum, contendo a gravação do último recital por ele dado, em 1950, no Festival de Besançon, três meses antes de morrer. Foi só à força de medicamentos que ele tocou e, mesmo assim, não foi capaz de interpretar a última peça prevista para o recital, que era uma valsa de Chopin. Saiu de cena profundamente combalido e voltou algum tempo depois para tocar, num último fôlego, Jesus, Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach. Esta última peça, porém, não ficou registada em disco.

Estive fortemente tentado a colocar aqui uma das peças por ele tocadas nesse recital, mas desisti. É angustiante ouvi-lo tocar no estado de saúde em que se encontrava. Dinu Lipatti tocou divinamente, como sempre, mas mais morto do que vivo, o que deu uma atmosfera de certo modo etérea ao seu desempenho.

Resolvi colocar aqui uma outra gravação de Dinu Lipatti, quando ele ainda tinha forças e era ovacionado de pé onde quer que atuasse. É o popular concerto para piano e orquestra de Edvard Grieg, uma das obras mais tocadas nas salas de concerto.

Se, mesmo assim, quiser ouvir o conteúdo integral dos discos que referi acima, com o último recital dado por Lipatti em vida, queira apontar para o link seguinte: https://www.youtube.com/watch?v=y8gG7lQdr_0.

16 março 2017

Nas estepes da Ásia Central



Nas Estepes da Ásia Central, poema sinfónico do compositor russo de origem georgiana Alexander Borodin (1833–1887), pela Orquestra Sinfónica Nacional Checa


O compositor Alexander Borodin descreveu assim o seu poema sinfónico Nas Estepes da Ásia Central:

«No silêncio das monótonas estepes da Ásia Central ouve-se o som pouco familiar de uma canção russa. Vinda de longe, ouvimos a aproximação de cavalos e camelos, assim como as notas bizarras e melancólicas de uma melodia oriental. Uma caravana aproxima-se, escoltada por soldados russos, e segue com segurança o seu caminho através do imenso deserto. Desaparece lentamente. As notas das melodias russa e asiática juntam-se numa harmonia comum, que se desvanece à medida que a caravana desaparece na distância.»

10 março 2017

"Renda" de granito


Remate superior do cruzeiro de São João, Castelo Branco (Foto: Direção Geral do Património Cultural)


Castelo Branco é uma cidade assente sobre granito. O granito é uma pedra pouco própria para a escultura, por causa da sua dureza e do grão grosseiro que habitualmente o caracteriza. Porém, não faltam em Castelo Branco esculturas de granito. Só no Jardim do Paço Episcopal há-as aos montes, figurando reis, apóstolos, santos e não sei que mais. Não há forasteiro que visite Castelo Branco e não dê uma volta por este jardim.

Não é, por isso, para as esculturas do Jardim do Paço que eu quero chamar a atenção, pois elas são bem conhecidas, mas sim para um cruzeiro que existe num largo vizinho do jardim, o Largo de São João. É o cruzeiro de S. João, também chamado cruzeiro de Castelo Branco, e está classificado como monumento nacional. Este cruzeiro é uma autêntica "renda" de granito, digna de toda a nossa admiração. Esculpido no séc. XVI, este cruzeiro situava-se em frente a uma igreja, a igreja de São João, que foi demolida em princípios do séc. XX. Segundo o Guia de Portugal, esta igreja não tinha grande interesse. Mesmo assim, foi património que se perdeu. Ficou o cruzeiro que, esse sim, tem muito interesse e merece que nos detenhamos a observá-lo.


Vista geral do cruzeiro de São João, Castelo Branco (Foto: Direção Geral do Património Cultural)

04 março 2017

Pontos


Dots, um filme de animação feito em 1940 por Norman McLaren (1914–1987), cineasta escocês naturalizado canadiano. Este filme foi desenhado por Norman McLaren diretamente na película de celuloide, fotograma a fotograma. O som deste filme também foi gerado por McLaren através de marcas feitas diretamente na banda sonora da película