15 dezembro 2017

Os bonecos de Estremoz são Património da Humanidade


Uma oleira de Estremoz fazendo bonecos. Repare-se também na representação do mobiliário tradicional alentejano. Obra de Jorge da Conceição (Foto: Tribuna Alentejo.pt)

Os bonecos de Estremoz foram declarados, com inteira justiça, Património Cultural Imaterial da Humanidade. Porquê os bonecos de Estremoz e não os de Barcelos, das Caldas da Rainha ou de outra terra qualquer? Porque são feitos de maneira diferente. Passemos a palavra ao escritor estremocense Hernâni Matos, investigador entusiasta e divulgador da cultura popular de Estremoz e do Alentejo em geral, na imprensa escrita e no seu blog pessoal Do Tempo da Outra Senhora, que recomendo:

Trata-se de uma manufatura “sui-generis”, distinta de todo o figurado português. Nela, o todo é criado a partir das partes, recorrendo a três geometrias distintas: a bola, o rolo e a placa. São elas que, com tamanhos variáveis, são utilizadas na gestação de cada boneco. Para tal são coladas umas às outras, recorrendo a barbutina e afeiçoadas pelas mãos mágicas dos artesãos, que lhes transmitem vida e significado.

Os bonecos nascem nus e depois vão sendo vestidos e enfeitados, que os bonecos também são vaidosos. Apenas a cara é confecionada com recurso a moldes adequados.

A técnica ancestral de produção de “Bonecos de “Estremoz” transmitiu-se ao longo dos séculos e chegou até nós. Depois da sua manufatura, os bonecos são postos a secar, depois são cozidos no forno e são pintados com cores minerais (…) garridas e alegres, como é timbre das claridades do Sul. Por fim, são protegidos com verniz.

Eu confesso a minha ignorância a respeito das técnicas de trabalhar o barro, apesar de, aqui mesmo ao lado do Porto, ter existido uma grande tradição de manufatura de bonecos (para presépios, cascatas sanjoaninas, etc.) em Vila Nova de Gaia. Não foi por acaso que nasceram em Vila Nova de Gaia alguns dos maiores escultores portugueses, como Soares dos Reis, Teixeira Lopes, Diogo de Macedo, etc. Também na Maia houve grandes santeiros (talvez ainda exista algum), que eram homens do povo cujas imagens se encontram em tudo quanto é capela, igreja ou catedral, em Portugal e no Brasil, e que também trabalhavam o barro, entre outros materiais.


Presépio, de Afonso Ginja (Foto: Hernâni Matos)


O Amor É Cego, de Ricardo Fonseca (Foto: Hernâni Matos)


Primavera, de artista não identificado, Museu Nacional de Etnologia, Lisboa


O Cirurgião ou Barbeiro-Sangrador, de artista não identificado (Foto de autor não identificado)

09 dezembro 2017

Os homens gloriosos

Sentei-me sem perguntas à beira da terra,
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
deixai-me esquecer o tempo,
inclinar nas mãos a testa desencantada,
e de mim mesma desaparecer,
— que o clamor dos homens gloriosos
cortou-me o coração de lado a lado.

Pois era um clamor de espadas bravias,
de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos,
ah, sem relâmpagos…
pegajosas de lodo e sangue denso.

Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!
Nuvens brandas, construindo mundos,
como se apagaram de repente!

Ah, o clamor dos homens gloriosos
atravessando ebriamente os mapas!

Antes o murmúrio da dor, esse murmúrio triste e simples
de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna.

Senhor da Vida, leva-me para longe!
Quero retroceder aos aléns de mim mesma!
Converter-me em animal tranquilo,
em planta incomunicável,
em pedra sem respiração.

Quebra-me no giro dos ventos e das águas!
Reduze-me ao pó que fui!
Reduze a pó minha memória!

Reduze a pó
a memória dos homens, escutada e vivida…

Cecília Meireles (1901–1964), poetisa brasileira



07 dezembro 2017

Os quatro rios do Paraíso


Os quatro rios do Paraíso, do pintor flamengo Peter Paul Rubens (1577–1640), Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria. O título deste óleo sobre tela remete-nos para os quatro rios do jardim do Éden referidos na Bíblia: Pison, Geon, Tigre e Eufrates (Genesis 2, 10–14). Segundo uma outra interpretação, este quadro representa as quatro partes do Mundo acompanhadas pelos seus rios principais. De acordo com esta interpretação, em primeiro plano e à esquerda, está a África com o Rio Nilo; à direita e imediatamente atrás do tigre, está a América e o Rio da Prata; em último plano e à esquerda, a Europa está acompanhada pelo Rio Danúbio; em último plano e à direita, a Ásia faz-se acompanhar pelo Rio Ganges

03 dezembro 2017

Leve, leve, o luar

Leve, leve, o luar de neve
goteja em perlas leitosas,
o luar de neve e tão leve
que ameiga o seio das rosas.

E as gotas finas da etérea
chuva, caindo do ar,
matam a sede sidérea
das coisas que embebe o luar.

A luz, oh sol, com que alagas,
abre feridas, e a lua
vem pôr no lume das chagas
o beijo da pele nua.

Afonso Lopes Vieira (1878–1946)


29 novembro 2017

Garças

Zhuravlí (Garças), uma canção sobre a 2.ª Guerra Mundial, pelo grande barítono russo Dimtri Hvorotovsky (1962–2017), que faleceu há uma semana vitimado por um tumor no cérebro. Está disponível uma tradução em português da letra desta canção, que pode ser selecionada nas definições (representadas pela roda dentada) do vídeo

27 novembro 2017

Mundo pequeno

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. “Sonora voz de uma concha”,
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: “Aromas de tomilhos dementam
cigarras.” Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: “Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer”.
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
“Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos.” Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

Manoel de Barros (1916–2014), poeta brasileiro



25 novembro 2017

O megaprocessador


Smartphones

Estamos numa época em que qualquer adolescente traz nas suas mãos um computador que é muitíssimo mais poderoso do que os computadores que nos anos 60 permitiram a ida do homem à Lua e que ocupavam salas e salas cheias de equipamento eletrónico até ao teto: é o telemóvel "inteligente" ou smartphone.

Um dos microprocessadores mais recentes que equipam smartphones, tablets, smartwatches e outros gadgets, o Snapdragon 835 da Qualcomm, por exemplo, tem três mil milhões de transistores lá dentro!!! Custa a acreditar, mas é verdade: o "cérebro" de um vulgar smartphone tem esses transistores todos lá dentro e cabem todos! A que ponto chegou a miniaturização na Eletrónica!


O processador Core i7-8700K, da Intel, por fora

O processador Core i7-8700K, da Intel, por dentro, com seis núcleos e um número de transistores ainda não revelado pelo fabricante

Os computadores portáteis e de secretária, por seu lado, têm processadores ainda mais poderosos, que têm várias vezes essa quantidade de transistores. As unidades de processamento gráfico (GPU), que nenhum computador minimamente digno desse nome nem nenhuma consola de jogos dispensa, têm um número idêntico de transistores ou ainda mais. E há um FPGA (field programmable gate array), da Xilinx, que contém mais de vinte mil milhões de transistores, dispostos em células lógicas programáveis!!!

A evolução da miniaturização ainda não acabou, longe disso, mas entretanto têm vindo a surgir novas arquiteturas e novas tecnologias, em que a velocidade de execução e o número de transistores deixam de ser tão importantes como são agora ou deixam mesmo de fazer qualquer sentido. É o caso das redes neuronais, dos computadores quânticos ou dos computadores baseados na manipulação de moléculas de ADN, por exemplo. Há muita investigação em curso nestes e noutros domínios e não se sabe aonde é que tudo isto vai parar, o que é muito promissor, mas também é muito assustador.

Estando as coisas neste pé, o que pensar, então, do trabalho e das despesas a que se entregou o engenheiro inglês James Newman, de Cambridge, ao construir um processador com transistores individuais, como se estivéssemos ainda nos anos 60 do século passado?


Alguns transistores individuais

Independentemente da evolução que a computação possa sofrer no futuro, a verdade é que, no presente, são idênticos na sua arquitetura fundamental quase todos os processadores de aplicação genérica usados em computadores, smartphones, tablets, etc. Estes processadores são uns chips genericamente chamados CPU (Central Processing Unit) que, juntamente com chips de memória, fazem parte de uma arquitetura programável proposta em 1946 pelo matemático John von Neumann. Quase todos os processadores genéricos atuais, portanto, baseiam-se na chamada "arquitetura de von Neumann", desde os mais simples microcontroladores PIC de 8 bits (não sei se há algum de 4 bits, mas talvez haja), até aos mais complexos microprocessadores multinúcleo de 64, 128 ou 256 bits da Intel, AMD, Apple, Qualcomm ou outro fabricante qualquer. Aqui reside o interesse do árduo trabalho desenvolvido pelo inglês James Newman: o seu processador de transistores individuais tem uma grande importância didática, porque permite ver como é constituído um processador, de um modo geral, e como é que ele funciona.

James Newman construiu na sua habitação aquilo a que chamou um "megaprocessador", por causa do seu tamanho. O megaprocessador de James Newman é uma "besta" constituída por sete painéis de 2 metros de altura e 10 metros de comprimento total, que contêm uma CPU completamente funcional, 256 bytes de memória RAM (Random Access Memory), interface I/O (entradas/saídas para comunicação com o exterior) e muitas luzinhas LED a acenderem e a apagarem. O homem demorou 4 anos a construir a sua máquina, que contém "apenas" 42 300 transistores individuais, todos soldados à mão!

O megaprocessador é um processador de 16 bits (exceto no caso das instruções de execução de programas, que são de 8 bits), tem uma Unidade Aritmética e Lógica (ALU), que além de somar e subtrair consegue executar algumas operações muito mais complexas, como multiplicação, divisão e cálculo de raiz quadrada(!), quatro registos de uso genérico (posições de memória que contêm os dados a serem trabalhados no imediato pela ALU, assim como resultados intermédios das operações efetuadas pela mesma), apontador de instruções de programas (program counter), apontador de pilha (stack pointer) e registo de estados (status register) com as respetivas flags (bits que indicam se uma determinada operação foi completada ou não, por exemplo, ou que dão outras indicações importantes para a correta execução dos programas). A nível de software, por outro lado, o nosso homem desenvolveu uma linguagem de baixo nível do tipo Assembler, com 256 instruções. Enfim, o megaprocessador de James Newman é bastante mais do que apenas uma cópia "king size" de um microprocessador Z80 ou equivalente, dos que eram usados nos princípio dos anos 80. E é muito útil para o ensino, tendo já sido encomendado por algumas universidades.


O megaprocessador em toda a sua glória (Foto: James Newman)

17 novembro 2017

Alfredo Keil


Leitura de uma Carta, 1874, óleo sobre tela de Alfredo Keil, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


Alfredo Keil (1850–1907) é conhecido, sobretudo, como tendo sido o autor da música do Hino Nacional de Portugal, "A Portuguesa". O autor da letra foi Henrique Lopes de Mendonça.

Nascido em Lisboa e de ascendência alemã, tanto por parte do pai como da mãe, o português Alfredo Keil foi um compositor de grande mérito, tendo escrito diversas obras musicais, de entre as quais se destacam "A Portuguesa" e a ópera "Serrana", que é a ópera portuguesa mais levada à cena.

Além de compositor, Alfredo Keil foi poeta, arqueólogo, colecionador de arte e, sobretudo, pintor. Nesta última qualidade, Alfredo Keil pintou centenas de quadros, os quais se inserem na corrente do Romantismo. Pintou sobretudo paisagens melancólicas e interiores requintados.


O Aterro em 1881; No Cais do Tejo, 1881, óleo sobre madeira de Alfredo Keil, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal. Em Lisboa, o Aterro é a zona das docas compreendida entre o Cais do Sodré e o Cais de Alcântara, incluindo a Avenida 24 de Julho


Um Rebanho em Sintra, 1898, óleo sobre tela de Alfredo Keil, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

13 novembro 2017

A viola campaniça


A Viola Campaniça e o despique no Baixo Alentejo, um programa de Michel Giacometti (com a ampla calvície que o caracterizava), incluído na sua série de programas "Povo que Canta", que foi transmitido pela RTP em 1971

A viola campaniça é um instrumento tradicional de uma região do Alentejo que abrange os concelhos de Aljustrel, Ourique, Castro Verde, Almodôvar e parte do concelho de Odemira. Há ainda referências à existência deste cordofone, em tempos passados, em Beja, Serpa, etc.

A viola campaniça pertence ao conjunto de cordofones genericamente chamados violas de arame, conjunto este que inclui as violas braguesa (originária de Braga), ramaldeira (de Ramalde, Porto), amarantina (de Amarante), da terra (das regiões autónomas dos Açores e da Madeira), etc. A viola campaniça é a maior delas todas, com cerca de 95 cm de comprimento, apresenta uma "cintura" muito apertada e tem tradicionalmente dez cordas, ou melhor, cinco ordens de cordas duplas.

Quando, no princípio da década de 70 do século passado, o grande etnomusicólogo Michel Giacometti filmou para a RTP o seu programa sobre a viola campaniça, para a série "Povo que Canta", esta viola estava em franco declínio. Adivinhava-se já a sua completa extinção a breve prazo.

Nos anos 80, a viola campaniça já se encontrava quase extinta. Foi então que José Alberto Sardinha, que é um advogado apaixonado pela música tradicional portuguesa, a ponto de se tornar um respeitadíssimo etnomusicólogo, se interessou por ela e editou, em 1986, um disco em vinil intitulado “Viola Campaniça, o Outro Alentejo”, com gravações dos dois únicos tocadores desta viola que ainda estavam vivos: Manuel Bento e o seu tio Francisco António, naturais da Aldeia Nova (Ourique).

O trabalho de José Alberto Sardinha frutificou e despertou o interesse de outras pessoas, que deram continuidade à reabilitação e recuperação deste instrumento de som tão rústico e tão belo. Foi o caso dos produtores de rádio Rafael Correia, através do seu programa "Lugar ao Sul", transmitido para todo o país pela Antena 1, e José Francisco Colaço Guerreiro, através do seu programa "Património", transmitido pela Rádio Castrense, de Castro Verde.

Presentemente, a viola campaniça está viva e bem viva, graças, nomeadamente, à sua divulgação junto das escolas da região, e é completamente impossível falar-se dela sem fazer referência ao nome de Pedro Mestre, grande cultor e divulgador deste intrumento tradicional do Alentejo.


Viola Campaniça e Pedro Mestre, programa da série "O Povo Que Ainda Canta", realizada para a RTP por Tiago Pereira, mentor do projeto "A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria"

11 novembro 2017

O caminho das estrelas

Seguindo
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda
sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade

Simples nota musical
indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano

preciso e inevitável
como o inevitável passado escravo
através das consciências
como o presente

Não abstrato
incolor entre ideais sem cor
sem ritmo entre as arritmias do irreal
inodoro
entre as selvas desaromatizadas
dos troncos sem raiz



Mas concreto
vestido do verde
do cheiro das florestas depois da chuva
da seiva do raio do trovão
as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos da esperança

A liberdade nos olhos
o som nos ouvidos
das mãos ávidas sobre a pele do tambor
num acelerado e claro ritmo
de Zaires Calaáris montanhas luz
vermelha das fogueiras infinitas nos capinzais violentados
harmonias spiritual de vozes tamtam
num ritmo claro de África

Assim
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo.

Agostinho Neto (1922–1979)


08 novembro 2017

The Negro Speaks of Rivers

I've known rivers:
I've known rivers ancient as the world and older than the
flow of human blood in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.
I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln
went down to New Orleans, and I've seen its muddy
bosom turn all golden in the sunset.

I've known rivers:
Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like the rivers.

Langston Hughes (1902–1967), poeta norte-americano


05 novembro 2017

As Índias Galantes


Rondeau "Forêts Paisibles", da ópera Les Indes Galantes, do compositor francês Jean-Philippe Rameau (1683–1764), por Patricia Petibon, no papel de Zima, Nicolas Rivenq, no papel de Adario, orquestra Les Arts Florissants, dirigida por William Christie, coro da Ópera de Paris e corpo de bailarinos executando uma coreografia de Blanca Li

02 novembro 2017

Uma escultura helenística


Alto-relevo em calcáreo, datado de ca. 325–300 A.C., provavelmente oriundo da cidade de Tarento, no sueste de Itália, que foi uma rica colónia grega. Esta escultura representa uma mulher e um guerreiro diante de um altar (parcialmente visível à esquerda), por certo chorando um outro guerreiro morto. Entre eles encontra-se um vaso para libações, no chão, e objetos pertencentes ao guerreiro falecido dependurados na parede do fundo: um elmo, uma couraça e uma espada. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque, Estados Unidos da América

30 outubro 2017

Castro Marim


Igreja matriz de Castro Marim (Foto: José Varela)

Castro Marim é uma vila situada no extremo oriental do Algarve que, apesar de estar muito próxima da costa com todo o seu afluxo de turistas, tem permanecido, de certa forma, esquecida. A sua reduzida população o confirma: Castro Marim não chega a ter dois mil habitantes. No entanto, Castro Marim foi um importante reduto de defesa do território nacional contra as ambições expansionistas de Espanha, pelo menos até à fundação de Vila Real de Santo António na foz do rio Guadiana, ocorrida no séc. XVIII. As poderosas fortificações que em Castro Marim se encontram não enganam.


Atualmente, o castelo de Castro Marim vigia apenas os flamingos que frequentam o sapal (Foto de autor desconhecido)

Para quem quiser conhecer o Sotavento Algarvio (quero dizer o verdadeiro Sotavento em todas as suas múltiplas facetas), tem em Castro Marim um excelente ponto de partida. Praias, sapal, rio, salinas, serra, Espanha e, um pouco mais longe, a planície alentejana, tudo ou quase tudo está praticamente ao alcance da mão de quem se encontrar em Castro Marim. Poucas localidades algarvias oferecem uma tal variedade de paisagens, tradições e locais diferenciados.



Já que se fala de tradições, não se pode esquecer a arte da renda de bilros, que ainda se pratica em Castro Marim e, sobretudo, na freguesia do Azinhal. Não é preciso vir a Vila do Conde ou a Peniche para apreciar a enorme beleza de uma tão difícil arte. Basta ir ao concelho de Castro Marim.


Renda de bilros de Azinhal e Castro Marim (Foto: Baixo Guadiana)

Entre os muitos locais a merecerem uma atenta visita de quem se encontrar em Castro Marim, contam-se a Serra do Caldeirão e o Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António. Agora que o sol se apresenta doirado e (relativamente) morno, com as temperaturas a tenderem a baixar (embora este ano o façam muito tardiamente), é uma excelente ocasião para se passear pela zona húmida e alagadiça do sapal, a sul, ou pelo interminável "mar" de cabeços rescendendo a alfazema e alecrim que constituem a serra, até para além de Alcoutim e do Barranco do Velho, a norte.


O pernilongo (Himantopus himantopus) é o símbolo do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António (Foto: Agostinho Gomes)

27 outubro 2017

Ao jeito cigano

Zigeunerweisen, do compositor espanhol Pablo de Sarasate (1844–1908), uma peça em dó menor inspirada nas csárdás da Hungria, pelo violinista israelo-americano Itzhak Perlman (que foi vítima de poliomielite quando tinha 4 anos de idade) e uma orquestra não identificada dirigida pelo maestro norte-americano James Levine

20 outubro 2017

Dor

Incêndio no histórico Pinhal de Leiria, um dos muitos incêndios florestais ocorridos em Portugal no passado domingo, 15 de outubro de 2017, de que resultaram mais de 40 mortos, cerca de 70 feridos (mais de uma dezena dos quais graves) e muitas centenas de desalojados. A povoação que se vê em primeiro plano é a vila de Vieira de Leiria, que o fogo não atingiu (Foto: Hélio Madeiras)

Uma dor assim, se tivesse podido prevê-la saberia suportá‑la.
Virgílio (70 A.C.–19 A.C.), poeta romano

15 outubro 2017

Sousa Lopes


Num Jardim de Paris, c. 1904-10, óleo sobre madeira de Adriano de Sousa Lopes, Museu Nacional de Arte Comtemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


Adriano de Sousa Lopes (1879–1944) foi um eclético pintor e desenhador português, cuja obra oscilou entre o impressionismo e um certo academismo. Participou na 1.ª Guerra Mundial como oficial encarregado de representar graficamente a participação das tropas portuguesas nesse conflito, do que resultou um conjunto de notáveis gravuras a água forte, a que deu o nome de Portugal na Grande Guerra. Além das imagens de guerra, Sousa Lopes pintou e desenhou temas dos mais diversos tipos, como retratos, paisagens, naturezas mortas, cenas históricas, etc.


Caçador de Águias, 1905, óleo sobre tela de Adriano de Sousa Lopes, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


A Blusa Azul, c. 1920, óleo sobre tela de Adriano de Sousa Lopes, Museu de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

13 outubro 2017

Mais música vintage de Angola


Belita Palma, que faleceu em 1988 e foi uma das maiores divas da música popular angolana, interpreta duas canções, uma em quimbundo e outra em português, acompanhada pelo mítico conjunto Ngola Ritmos


Tchinina, cantora natural do Huambo, interpreta em umbundo Somaiangue (Soma Yange na ortografia atual)


A endiabrada Bazooka, de Carlos Lamartine e o seu conjunto Águias Reais. Certamente por razões políticas, no tempo colonial os discos de Carlos Lamartine não passavam na estação de rádio oficial A Voz de Angola. Só no Rádio Clube de Angola era possível ouvi-los. Depois do 25 de abril, com o fim da censura, Carlos Lamartine passou a poder ser tocado em todas as rádios e viu a sua canção Pala Ku Nu Abesa o Muxima tornar-se imediatamente um grande êxito


Manuelé, cantado em quimbundo por Sabu. Tal como aconteceu com Carlos Lamartine, Sabu estava proscrito da rádio oficial A Voz de Angola na época colonial. Era preciso sintonizar o Rádio Clube de Angola para que se pudesse ouvir a sua voz


Milá Melo, que foi outra diva da música popular de Angola, canta em umbundo Vamos à Anhara, acompanhada pelo conjunto Os Kiezos. Anhara ou chana é uma extensa superfície plana, arenosa e alagadiça, muito comum no leste de Angola

10 outubro 2017

Zero em comportamento



Zéro de conduite: Jeunes diables au collège, filme de Jean Vigo (1905–1934), rodado em 1932 e estreado em 1933


Agora que as aulas estão a funcionar em pleno, parece-me ser esta a ocasião indicada para vermos o filme "Zéro de Conduite", do cineasta francês Jean Vigo, falecido em 1934 com apenas 29 anos de idade. Este filme foi por muitos considerado anarquista, por incitar os alunos das escolas e colégios de França à indisciplina e à rebeldia, segundo diziam. Foi proibido pela censura até 1946, como sendo um filme «antifrancês». Esta proibição não impediu que o filme fosse exibido frequentemente nos cineclubes da Bélgica.

"Zéro de Conduite" é um filme marcante, que tem um lugar merecido na história do cinema. Foi rodado em 1932 no colégio para rapazes de Saint-Cloud, nos arredores de Paris, que o próprio realizador frequentou durante parte da sua infância.

No filme, terminadas as férias, os rapazes regressam ao colégio, que é um lugar sombrio e repressivo, onde eles são tratados severamente pelos professores, que lhes atribuem a nota zero em comportamento e os privam de liberdade e de criatividade. Um novo vigilante do colégio, chamado Huguet, torna-se aliado e cúmplice dos rapazes, que desencadeiam uma revolta por ocasião da festa do colégio. O filme termina com os rapazes caminhando livres pelos telhados da repressiva instituição.

06 outubro 2017

A saia de esquilhas


No Algarve (Foto de autor desconhecido)

Um homem rico tinha três filhas, e costumava ir passar o verão com elas para o campo; ao voltar para a corte ficou a filha mais velha, que era muito esperta, encarregada de arranjar a bagagem. Depois de ter tudo arrumado e pronto para partir, foi ter com a caseira da quinta, que andava no arranjo da sua casa. Em cima de uma caixa estava uma roca com estopa, e a menina pegou nela para se entreter:

— Menina, não pegue nessa roca; pode meter alguma pua pelas unhas, e olhe que faz grandes dores.

A velha continuou a governar a sua casa, quando sentiu um grito; veio ver o que era. Era a menina que tinha caído desmaiada, sem sentidos. Deu-lhe a cheirar alecrim, alfazema, mas ela não voltava a si. Apoquentada com aquela desgraça, escondeu a menina, e logo que anoiteceu foi deitá-la na tapada real; pôs-lhe uma almofada para recostar a cabeça e cobriu-a com uma manta, fingindo que estava ali a dormir. Passado outro dia foi lá ver se a menina teria dado acordo de si. Nada. Calou-se muito calada e voltou para sua casa.

O príncipe costumava sempre andar à caça, e num dia recolheu-se áquela tapada, porque lhe anoiteceu depressa; mas foi grande o seu espanto quando descobriu ali uma menina muito formosa, a dormir, sozinha. Esteve primeiro a olhar para ela muito tempo; já se sentia apaixonado, e quis acordá-la; ela estava corada e risonha, mas não se movia. O príncipe quis acordá-la, porque bem conhecia que não estava morta, queria-lhe falar. Foi tudo impossível. Ali ficou junto dela, e todas as vezes que podia, fingia que ia para a caça, mas não fazia senão vir sentar-se para o pé da menina que ele já amava com loucura. Só o criado que o acompanhava é que sabia do segredo. O príncipe vinha à corte de fugida só quando era preciso, e tornava para a tapada, onde guardava a menina adormecida, que ainda assim veio a ter três filhos.

As crianças foram crescendo, e cada vez se tornavam mais encantadoras; mas o príncipe tinha uma grande pena de a mãe estar naquele estado. Um dia, andando um dos pequeninos a brincar em cima da cama, começou a pegar nas unhas da mãe, e por acaso, sem saber como, fez-lhe saltar da unha a pua que causara aquela doença. O príncipe, que estava ali, ficou maravilhado por vê-la mexer-se logo e começar a falar e a beijar os filhos, como se tivesse voltado à vida. O príncipe contou-lhe tudo como se tinha passado até ali, e disse-lhe que os seus três filhos se chamavam Cravo, Rosa e Jasmim. A rainha já andava desconfiada daquelas ausências do filho, e tratava de ver se descobria alguma coisa.

Uma ocasião o príncipe teve de ir a uma grande feira, e perguntou à sua namorada se queria que lhe trouxesse de lá alguma coisa; depois de muitas instâncias sempre disse:

— Pois traz-me de lá uma saia de esquilhas.

Não havia lá isso, mas o príncipe mandou-a fazer de propósito; era uma saia cheia de guisos, que tintelintavam. A menina ficou muito contente com a lembrança. Mas a rainha que maquinava a sua vingança, e que pelo pajem que acompanhava o filho já sabia tudo, fez com que o príncipe se demorasse muitos dias na corte. O filho com medo do génio ruim da rainha não dizia nada, mas andava cheio de saudades; foi de uma vez que ela lhe ouviu um suspiro:

— Ai de mim,

Cravo, Rosa e Jasmim.

Isto lhe confirmou a verdade; a rainha chamou o pajem e disse-lhe:

— Vai já, quando não mando-te matar, e traz-me aqui o menino Cravo. Diz lá á minha nora que é ordem do príncipe, que me contou tudo.

O pajem trouxe o menino; mas a velha rainha entregou-o à criada, dizendo:

— Ensopa-me esse menino para o jantar.

Quando o filho estava jantando, e com fastio, porque andava muito triste, a mãe disse-lhe:

— Come, come, que teu é.

Passados dias a rainha deu ordem ao pajem para ir buscar a menina Rosa. Seguiram-se as mesmas coisas. Depois deu ordem para lhe trazer o menino Jasmim. O príncipe já andava doente, e a velha rainha dizia-lhe sempre à mesa:

— Come, come, que teu é.

Por fim, não contente ainda desta vingança, mandou dizer à nora, que viesse à corte, porque a queria casar com o seu filho. A menina que já andava morta de saudades, por se ver sem os seus filhos, vestiu-se à pressa com a sua saia de esquilhas, e partiu para a corte. A rainha estava à espera dela e assim que a viu, deixou-a entrar para um corredor, e lançou-lhe as unhas furiosa para a afogar. A menina lutou para ver se lhe escapava, e quanto mais lutava, mais barulho fazia a saia de esquilhas.

O príncipe, que estava de cama, assim que ouviu aquele som lembrou-se de sua mulher e levantou-se para ir ver o que era. Viu a rainha querendo estrangular a nora. Chamou gente; e foi então que se soube das ordens que a rainha tinha dado para matarem os netos. O príncipe ainda ficou mais aflito e começou a gritar:

— Ai de mim,

Cravo, Rosa e Jasmim!

Foi então que a criada da cozinha disse que não tinha cumprido as ordens da rainha, e que tinha escondido os meninos. A rainha foi condenada, e o pajem sentenciado à morte, e a cozinheira em paga foi feita dama da nova rainha.

Conto tradicional do Algarve, in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga