20 janeiro 2018

Apoio para a cabeça


Apoio para uma pessoa colocar a cabeça enquanto dorme, em jeito de travesseiro. Artista anónimo do povo Luba, República Democrática do Congo. Museu do Quai Branly, Paris, França

14 janeiro 2018

A tragédia dos índios Xetá



Xetá é o nome de uma tribo de índios brasileiros, do grupo linguístico tupi-guarani, originários do noroeste do estado do Paraná. Esta tribo foi quase totalmente exterminada do modo descrito neste vídeo, ao ponto de só restarem oito sobreviventes em 1999, dispersos pelos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo. Desde então, os Xetá têm vindo a multiplicar-se, em resultado do casamento dos sobreviventes com índios de outras tribos e com não-índios. De acordo com o Instituto Socioambiental, em 2014 já se contavam 69 índios Xetá. Da destruição da floresta que os Xetá habitavam resultou uma catástrofe ecológica, também mostrada no vídeo.

A tragédia que atingiu os Xetá não é coisa do passado. Neste preciso momento, em pleno século XXI, outras tribos de índios brasileiros passam por provações equivalentes. É o caso dos Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, que vivem em barracas na beira da estrada, depois de terem sido expulsos das suas terras ancestrais por fazendeiros, e cujos líderes são sistematicamente assassinados por pistoleiros, um após outro. É o caso, igualmente, dos Korubo do oeste do Amazonas, que têm sido perseguidos e chacinados por madeireiros e garimpeiros. E existem outros casos, igualmente graves, nestes e noutros estados brasileiros. A situação dos índios tem vindo a agravar-se desde que Michel Temer foi feito presidente do Brasil.

09 janeiro 2018

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar    de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome    fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo    nem mártir    nem soldado
Mas apenas    por último    indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

José Carlos Ary dos Santos (1937–1984)


07 janeiro 2018

Cete


Fachada principal do mosteiro de São Pedro de Cete (Foto: Rota do Românico)

Cete (lê-se "Cête") é uma vila do concelho de Paredes, situada a cerca de 30 km da cidade do Porto. O que há de mais notável em Cete é o seu mosteiro românico, dedicado a São Pedro, que foi um dos vários mosteiros beneditinos da Ordem de Cluny construídos em Portugal.

Tudo indica que o mosteiro de São Pedro de Cete já existia no ano de 924, data de um documento que lhe faz referência. A poderosa torre ameada da igreja, de caráter claramente defensivo, é testemunha de um tempo de guerras, pilhagens, invasões, conquistas e reconquistas, não só entre cristãos e muçulmanos, mas também entre habitantes locais e atacantes normandos (vikings). Estes últimos, vindos do mar pelo rio Douro adentro, cobiçavam as riquezas das populações e das comunidades monásticas, que saqueavam. As igrejas eram um refúgio para os habitantes em pânico, que assim procuravam defender-se dos exércitos mouros e das hordas normandas.

O que hoje se vê no mosteiro de São Pedro de Cete não é apenas românico, mas também gótico, em resultado de acrescentos e restauros feitos, sobretudo, nos séculos XIII e XIV. Além do exterior do mosteiro, merecem ser admirados o despojado, mas belo, interior da igreja e o claustro românico.


Claustro do mosteiro de São Pedro de Cete (Foto: Direção Regional de Cultura do Norte)

01 janeiro 2018

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões (1524–1580)

31 dezembro 2017

Ballet, para não começar um novo ano sempre com valsas de Strauss


Danças Polovtsianas, da ópera Príncipe Igor, de Alexander Borodin, pela Companhia de Bailado do Teatro Bolchoi, de Moscovo, Rússia


Dança da Fada do Açúcar, do bailado O Quebra-Nozes, de Piotr Ilitch Tchaikovsky, por Nina Kaptsova


Dança Ritual do Fogo, do bailado El Amor Brujo, de Manuel de Falla, pela Companhia de Bailado da Fundación Arte Lírico, de Bogotá, Colômbia


Cena da Varanda, do bailado Romeu e Julieta, de Serguei Prokofiev, por Friedemann Vogel e Polina Semionova


Mazurka, do bailado Coppelia, de Léo Delibes, pela Companhia de Bailado do Teatro Bolchoi, de Moscovo, Rússia

29 dezembro 2017

Almada Negreiros


Figurinos da Alfaiataria Cunha, 1913, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

Está patente no Museu Nacional de Soares dos Reis, aqui no Porto, até ao dia 18 de março de 2018, a exposição “José de Almada Negreiros: desenho em movimento”, que retrata a influência da linguagem cinematográfica na obra do grande artista plástico modernista português, que foi também escritor notável.

José Sobral de Almada Negreiros nasceu na Roça da Saudade, Trindade, São Tomé e Príncipe, em 1893 e faleceu em Lisboa em 1970. Sem nunca ter frequentado qualquer escola de ensino artístico, Almada Negreiros foi no entanto um dos artistas mais importantes do século XX português, graças ao seu génio multifacetado. Embora se tenha distinguido mais como desenhador do que como pintor, aqui mostro algumas das suas pinturas.


Autorretrato num Grupo, 1925, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


Autorretrato, c. 1927, óleo sobre tela de Almada Negreiros, coleção particular


Duplo Autorretrato, 1934–36, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal. Neste quadro vê-se Almada Negreiros acompanhado da sua mulher, Sarah Afonso (1899–1983), que também foi uma artista plástica de grande valor e teve influência sobre o estilo dele


Primeiro estudo para a decoração do proscénio do Teatro Muñoz Seca de Madrid, 1929, guache sobre papel de Almada Negreiros, Museu de Arte Contemporâneoa do Chiado, Lisboa, Portugal


Maternidade, 1935, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal. Este quadro representa a mulher do artista, Sarah Afonso, com o filho de ambos, José


Retrato do Poeta Fernando Pessoa, 1954, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Museu de Lisboa, Lisboa, Portugal


As Banhistas, óleo sobre tela de Almada Negreiros, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

24 dezembro 2017

Natal up-to-date

Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da Lua
Rainhas de beleza vêm de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

David Mourão-Ferreira (1927-1996), in Cancioneiro de Natal, 1971


Adoração dos Pastores, de Jorge Afonso (c.1470–c.1540), Retábulo da Igreja da Madre de Deus (1515), Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

22 dezembro 2017

Cai ou não cai?

Safety Last!, filme mudo norte-americano de 1923, com Harold Lloyd como principal protagonista e realizado por Fred C. Newmeyer e Sam Taylor

"Safety Last!", que no Brasil recebeu o estúpido título de "O Homem Mosca", é um dos mais notáveis filmes de toda a história do cinema, graças à antológica sequência final da escalada, que é hilariante e, ao mesmo tempo, arrepiante. Se há filme que pode ser considerado de suspense em todos os sentidos da palavra, é este. Aproveito para chamar a atenção para o facto de as cenas mais perigosas do filme terem sido protagonizadas pelo próprio Harold Lloyd em pessoa, sem recurso a duplos. O título original do filme, "Safety Last!" (A segurança no fim!), é uma alusão a um aviso existente em locais de trabalho perigosos dizendo "Safety First!" (A segurança primeiro!). Este parece-me ser um filme apropriado para a época festiva de Natal que atravessamos, embora não seja um filme de tema natalício. Por isso o proponho. Além do mais, é um grande filme.

19 dezembro 2017

As adivinhas em anexins


(Foto: João L.)

Um rei quis experimentar o juízo de três conselheiros que tinha, e indo a passear com eles encontrou um velho a trabalhar num campo, e saudou-o:

— Muita neve vai na serra!

Respondeu o velho com a cara alegre:

— Já, senhor, é tempo dela.

Os conselheiros ficaram a olhar uns para os outros, porque era verão, e não percebiam o que o velho e o rei queriam dizer na sua. O rei fez-lhe outra pergunta:

— Quantas vezes te ardeu a casa?

— Já, senhor, por duas vezes.

— E quantas contas ser depenado?

— Ainda me faltam três vezes.

Mais pasmados ficaram os conselheiros; o rei disse para o velho:

— Pois se cá te vierem três patos, depena-os tu.

— Depenarei, real senhor, porque assim o manda.

O rei seguiu seu caminho a mofar da sabedoria dos conselheiros, e que os ia despedir do seu serviço se lhe não soubessem explicar a conversa que tivera com o velho. Eles, querendo campar por espertos, foram ter com o velho para explicar a conversa; o velho respondeu:

— Explico tudo, mas só se se despirem e me derem a roupa e o dinheiro que trazem:

Não tiveram outro remédio senão obedecer; o velho disse:

— Olhem: «Muita neve vai na serra», é porque eu estou cheio de cabelos brancos; «já é tempo dela», é porque tenho idade para isso. «Quantas vezes me ardeu a casa?» é porque diz lá o ditado: «Quantas vezes te ardeu a casa? Quantas casei a filha.» E como já casei duas filhas sei o que isso custa. «E quantas vezes conto ser depenado?» é que ainda tenho três filhas solteiras e lá diz o outro:

Quem casa filha
Depenado fica.

Agora os três patos que me mandou o rei são vossas mercês, que se despiram e me deram os fatos para explicar-lhes tudo.

Os conselheiros do rei iam-se zangando, quando o rei apareceu, e disse que se eles quisessem voltar para o palácio vestidos que se haviam ali obrigar a darem três dotes bons para o casamento das outras três filhas do velho lavrador.

Conto tradicional do Porto, in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

15 dezembro 2017

Os bonecos de Estremoz são Património da Humanidade


Uma oleira de Estremoz fazendo bonecos. Repare-se também na representação do mobiliário tradicional alentejano. Obra de Jorge da Conceição (Foto: Tribuna Alentejo.pt)

Os bonecos de Estremoz foram declarados, com inteira justiça, Património Cultural Imaterial da Humanidade. Porquê os bonecos de Estremoz e não os de Barcelos, das Caldas da Rainha ou de outra terra qualquer? Porque são feitos de maneira diferente. Passemos a palavra ao escritor estremocense Hernâni Matos, investigador entusiasta e divulgador da cultura popular de Estremoz e do Alentejo em geral, na imprensa escrita e no seu blog pessoal Do Tempo da Outra Senhora, que recomendo:

Trata-se de uma manufatura “sui-generis”, distinta de todo o figurado português. Nela, o todo é criado a partir das partes, recorrendo a três geometrias distintas: a bola, o rolo e a placa. São elas que, com tamanhos variáveis, são utilizadas na gestação de cada boneco. Para tal são coladas umas às outras, recorrendo a barbutina e afeiçoadas pelas mãos mágicas dos artesãos, que lhes transmitem vida e significado.

Os bonecos nascem nus e depois vão sendo vestidos e enfeitados, que os bonecos também são vaidosos. Apenas a cara é confecionada com recurso a moldes adequados.

A técnica ancestral de produção de “Bonecos de “Estremoz” transmitiu-se ao longo dos séculos e chegou até nós. Depois da sua manufatura, os bonecos são postos a secar, depois são cozidos no forno e são pintados com cores minerais (…) garridas e alegres, como é timbre das claridades do Sul. Por fim, são protegidos com verniz.

Eu confesso a minha ignorância a respeito das técnicas de trabalhar o barro, apesar de, aqui mesmo ao lado do Porto, ter existido uma grande tradição de manufatura de bonecos (para presépios, cascatas sanjoaninas, etc.) em Vila Nova de Gaia. Não foi por acaso que nasceram em Vila Nova de Gaia alguns dos maiores escultores portugueses, como Soares dos Reis, Teixeira Lopes, Diogo de Macedo, etc. Também na Maia houve grandes santeiros (talvez ainda exista algum), que eram homens do povo cujas imagens se encontram em tudo quanto é capela, igreja ou catedral, em Portugal e no Brasil, e que também trabalhavam o barro, entre outros materiais.


Presépio, de Afonso Ginja (Foto: Hernâni Matos)


O Amor É Cego, de Ricardo Fonseca (Foto: Hernâni Matos)


Primavera, de artista não identificado, Museu Nacional de Etnologia, Lisboa


O Cirurgião ou Barbeiro-Sangrador, de artista não identificado (Foto de autor não identificado)

09 dezembro 2017

Os homens gloriosos

Sentei-me sem perguntas à beira da terra,
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
deixai-me esquecer o tempo,
inclinar nas mãos a testa desencantada,
e de mim mesma desaparecer,
— que o clamor dos homens gloriosos
cortou-me o coração de lado a lado.

Pois era um clamor de espadas bravias,
de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos,
ah, sem relâmpagos…
pegajosas de lodo e sangue denso.

Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!
Nuvens brandas, construindo mundos,
como se apagaram de repente!

Ah, o clamor dos homens gloriosos
atravessando ebriamente os mapas!

Antes o murmúrio da dor, esse murmúrio triste e simples
de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna.

Senhor da Vida, leva-me para longe!
Quero retroceder aos aléns de mim mesma!
Converter-me em animal tranquilo,
em planta incomunicável,
em pedra sem respiração.

Quebra-me no giro dos ventos e das águas!
Reduze-me ao pó que fui!
Reduze a pó minha memória!

Reduze a pó
a memória dos homens, escutada e vivida…

Cecília Meireles (1901–1964), poetisa brasileira



07 dezembro 2017

Os quatro rios do Paraíso


Os quatro rios do Paraíso, do pintor flamengo Peter Paul Rubens (1577–1640), Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria. O título deste óleo sobre tela remete-nos para os quatro rios do jardim do Éden referidos na Bíblia: Pison, Geon, Tigre e Eufrates (Genesis 2, 10–14). Segundo uma outra interpretação, este quadro representa as quatro partes do Mundo acompanhadas pelos seus rios principais. De acordo com esta interpretação, em primeiro plano e à esquerda, está a África com o Rio Nilo; à direita e imediatamente atrás do tigre, está a América e o Rio da Prata; em último plano e à esquerda, a Europa está acompanhada pelo Rio Danúbio; em último plano e à direita, a Ásia faz-se acompanhar pelo Rio Ganges

03 dezembro 2017

Leve, leve, o luar

Leve, leve, o luar de neve
goteja em perlas leitosas,
o luar de neve e tão leve
que ameiga o seio das rosas.

E as gotas finas da etérea
chuva, caindo do ar,
matam a sede sidérea
das coisas que embebe o luar.

A luz, oh sol, com que alagas,
abre feridas, e a lua
vem pôr no lume das chagas
o beijo da pele nua.

Afonso Lopes Vieira (1878–1946)


29 novembro 2017

Garças

Zhuravlí (Garças), uma canção sobre a 2.ª Guerra Mundial, pelo grande barítono russo Dimtri Hvorotovsky (1962–2017), que faleceu há uma semana vitimado por um tumor no cérebro. Está disponível uma tradução em português da letra desta canção, que pode ser selecionada nas definições (representadas pela roda dentada) do vídeo

27 novembro 2017

Mundo pequeno

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. “Sonora voz de uma concha”,
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: “Aromas de tomilhos dementam
cigarras.” Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: “Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer”.
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
“Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos.” Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

Manoel de Barros (1916–2014), poeta brasileiro



25 novembro 2017

O megaprocessador


Smartphones

Estamos numa época em que qualquer adolescente traz nas suas mãos um computador que é muitíssimo mais poderoso do que os computadores que nos anos 60 permitiram a ida do homem à Lua e que ocupavam salas e salas cheias de equipamento eletrónico até ao teto: é o telemóvel "inteligente" ou smartphone.

Um dos microprocessadores mais recentes que equipam smartphones, tablets, smartwatches e outros gadgets, o Snapdragon 835 da Qualcomm, por exemplo, tem três mil milhões de transistores lá dentro!!! Custa a acreditar, mas é verdade: o "cérebro" de um vulgar smartphone tem esses transistores todos lá dentro e cabem todos! A que ponto chegou a miniaturização na Eletrónica!


O processador Core i7-8700K, da Intel, por fora

O processador Core i7-8700K, da Intel, por dentro, com seis núcleos e um número de transistores ainda não revelado pelo fabricante

Os computadores portáteis e de secretária, por seu lado, têm processadores ainda mais poderosos, que têm várias vezes essa quantidade de transistores. As unidades de processamento gráfico (GPU), que nenhum computador minimamente digno desse nome nem nenhuma consola de jogos dispensa, têm um número idêntico de transistores ou ainda mais. E há um FPGA (field programmable gate array), da Xilinx, que contém mais de vinte mil milhões de transistores, dispostos em células lógicas programáveis!!!

A evolução da miniaturização ainda não acabou, longe disso, mas entretanto têm vindo a surgir novas arquiteturas e novas tecnologias, em que a velocidade de execução e o número de transistores deixam de ser tão importantes como são agora ou deixam mesmo de fazer qualquer sentido. É o caso das redes neuronais, dos computadores quânticos ou dos computadores baseados na manipulação de moléculas de ADN, por exemplo. Há muita investigação em curso nestes e noutros domínios e não se sabe aonde é que tudo isto vai parar, o que é muito promissor, mas também é muito assustador.

Estando as coisas neste pé, o que pensar, então, do trabalho e das despesas a que se entregou o engenheiro inglês James Newman, de Cambridge, ao construir um processador com transistores individuais, como se estivéssemos ainda nos anos 60 do século passado?


Alguns transistores individuais

Independentemente da evolução que a computação possa sofrer no futuro, a verdade é que, no presente, são idênticos na sua arquitetura fundamental quase todos os processadores de aplicação genérica usados em computadores, smartphones, tablets, etc. Estes processadores são uns chips genericamente chamados CPU (Central Processing Unit) que, juntamente com chips de memória, fazem parte de uma arquitetura programável proposta em 1946 pelo matemático John von Neumann. Quase todos os processadores genéricos atuais, portanto, baseiam-se na chamada "arquitetura de von Neumann", desde os mais simples microcontroladores PIC de 8 bits (não sei se há algum de 4 bits, mas talvez haja), até aos mais complexos microprocessadores multinúcleo de 64, 128 ou 256 bits da Intel, AMD, Apple, Qualcomm ou outro fabricante qualquer. Aqui reside o interesse do árduo trabalho desenvolvido pelo inglês James Newman: o seu processador de transistores individuais tem uma grande importância didática, porque permite ver como é constituído um processador, de um modo geral, e como é que ele funciona.

James Newman construiu na sua habitação aquilo a que chamou um "megaprocessador", por causa do seu tamanho. O megaprocessador de James Newman é uma "besta" constituída por sete painéis de 2 metros de altura e 10 metros de comprimento total, que contêm uma CPU completamente funcional, 256 bytes de memória RAM (Random Access Memory), interface I/O (entradas/saídas para comunicação com o exterior) e muitas luzinhas LED a acenderem e a apagarem. O homem demorou 4 anos a construir a sua máquina, que contém "apenas" 42 300 transistores individuais, todos soldados à mão!

O megaprocessador é um processador de 16 bits (exceto no caso das instruções de execução de programas, que são de 8 bits), tem uma Unidade Aritmética e Lógica (ALU), que além de somar e subtrair consegue executar algumas operações muito mais complexas, como multiplicação, divisão e cálculo de raiz quadrada(!), quatro registos de uso genérico (posições de memória que contêm os dados a serem trabalhados no imediato pela ALU, assim como resultados intermédios das operações efetuadas pela mesma), apontador de instruções de programas (program counter), apontador de pilha (stack pointer) e registo de estados (status register) com as respetivas flags (bits que indicam se uma determinada operação foi completada ou não, por exemplo, ou que dão outras indicações importantes para a correta execução dos programas). A nível de software, por outro lado, o nosso homem desenvolveu uma linguagem de baixo nível do tipo Assembler, com 256 instruções. Enfim, o megaprocessador de James Newman é bastante mais do que apenas uma cópia "king size" de um microprocessador Z80 ou equivalente, dos que eram usados nos princípio dos anos 80. E é muito útil para o ensino, tendo já sido encomendado por algumas universidades.


O megaprocessador em toda a sua glória (Foto: James Newman)

17 novembro 2017

Alfredo Keil


Leitura de uma Carta, 1874, óleo sobre tela de Alfredo Keil, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


Alfredo Keil (1850–1907) é conhecido, sobretudo, como tendo sido o autor da música do Hino Nacional de Portugal, "A Portuguesa". O autor da letra foi Henrique Lopes de Mendonça.

Nascido em Lisboa e de ascendência alemã, tanto por parte do pai como da mãe, o português Alfredo Keil foi um compositor de grande mérito, tendo escrito diversas obras musicais, de entre as quais se destacam "A Portuguesa" e a ópera "Serrana", que é a ópera portuguesa mais levada à cena.

Além de compositor, Alfredo Keil foi poeta, arqueólogo, colecionador de arte e, sobretudo, pintor. Nesta última qualidade, Alfredo Keil pintou centenas de quadros, os quais se inserem na corrente do Romantismo. Pintou sobretudo paisagens melancólicas e interiores requintados.


O Aterro em 1881; No Cais do Tejo, 1881, óleo sobre madeira de Alfredo Keil, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal. Em Lisboa, o Aterro é a zona das docas compreendida entre o Cais do Sodré e o Cais de Alcântara, incluindo a Avenida 24 de Julho


Um Rebanho em Sintra, 1898, óleo sobre tela de Alfredo Keil, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

13 novembro 2017

A viola campaniça


A Viola Campaniça e o despique no Baixo Alentejo, um programa de Michel Giacometti (com a ampla calvície que o caracterizava), incluído na sua série de programas "Povo que Canta", que foi transmitido pela RTP em 1971

A viola campaniça é um instrumento tradicional de uma região do Alentejo que abrange os concelhos de Aljustrel, Ourique, Castro Verde, Almodôvar e parte do concelho de Odemira. Há ainda referências à existência deste cordofone, em tempos passados, em Beja, Serpa, etc.

A viola campaniça pertence ao conjunto de cordofones genericamente chamados violas de arame, conjunto este que inclui as violas braguesa (originária de Braga), ramaldeira (de Ramalde, Porto), amarantina (de Amarante), da terra (das regiões autónomas dos Açores e da Madeira), etc. A viola campaniça é a maior delas todas, com cerca de 95 cm de comprimento, apresenta uma "cintura" muito apertada e tem tradicionalmente dez cordas, ou melhor, cinco ordens de cordas duplas.

Quando, no princípio da década de 70 do século passado, o grande etnomusicólogo Michel Giacometti filmou para a RTP o seu programa sobre a viola campaniça, para a série "Povo que Canta", esta viola estava em franco declínio. Adivinhava-se já a sua completa extinção a breve prazo.

Nos anos 80, a viola campaniça já se encontrava quase extinta. Foi então que José Alberto Sardinha, que é um advogado apaixonado pela música tradicional portuguesa, a ponto de se tornar um respeitadíssimo etnomusicólogo, se interessou por ela e editou, em 1986, um disco em vinil intitulado “Viola Campaniça, o Outro Alentejo”, com gravações dos dois únicos tocadores desta viola que ainda estavam vivos: Manuel Bento e o seu tio Francisco António, naturais da Aldeia Nova (Ourique).

O trabalho de José Alberto Sardinha frutificou e despertou o interesse de outras pessoas, que deram continuidade à reabilitação e recuperação deste instrumento de som tão rústico e tão belo. Foi o caso dos produtores de rádio Rafael Correia, através do seu programa "Lugar ao Sul", transmitido para todo o país pela Antena 1, e José Francisco Colaço Guerreiro, através do seu programa "Património", transmitido pela Rádio Castrense, de Castro Verde.

Presentemente, a viola campaniça está viva e bem viva, graças, nomeadamente, à sua divulgação junto das escolas da região, e é completamente impossível falar-se dela sem fazer referência ao nome de Pedro Mestre, grande cultor e divulgador deste intrumento tradicional do Alentejo.


Viola Campaniça e Pedro Mestre, programa da série "O Povo Que Ainda Canta", realizada para a RTP por Tiago Pereira, mentor do projeto "A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria"

11 novembro 2017

O caminho das estrelas

Seguindo
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda
sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade

Simples nota musical
indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano

preciso e inevitável
como o inevitável passado escravo
através das consciências
como o presente

Não abstrato
incolor entre ideais sem cor
sem ritmo entre as arritmias do irreal
inodoro
entre as selvas desaromatizadas
dos troncos sem raiz



Mas concreto
vestido do verde
do cheiro das florestas depois da chuva
da seiva do raio do trovão
as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos da esperança

A liberdade nos olhos
o som nos ouvidos
das mãos ávidas sobre a pele do tambor
num acelerado e claro ritmo
de Zaires Calaáris montanhas luz
vermelha das fogueiras infinitas nos capinzais violentados
harmonias spiritual de vozes tamtam
num ritmo claro de África

Assim
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo.

Agostinho Neto (1922–1979)