07 maio 2016

Selva viva


Kawsak Sacha (Selva Viva), um vídeo sobre a floresta e o povo Kichwa que a habita em Sarayaku, na região amazónica da República do Equador


A floresta está cheia de seres vivos e das relações de comunicação que estes seres mantêm uns com os outros; o mundo natural é também um mundo social. A floresta não se limita a proporcionar um espaço para todos os seus habitantes viverem, quer estes pertençam ao reino vegetal, quer pertençam ao reino animal, incluindo os seres humanos. Também lhes fornece energia e equilíbrio emocional, psicológico, físico e espiritual. A floresta não é um mero elemento paisagístico nem um simples recurso natural; é uma expressão da própria vida.

Comentários: 2

Blogger Um Jeito Manso escreveu...

Olá Fernando,

Ia dizer que adoro estes seus temas, estes seus vídeos mas depois achei excessivo falar em adoração. Substituí por 'gostar muito'. Depois voltei atrás: é adorar mesmo. São outros mundos mas uns mundos tão maravilhosos que apenas podem ser contemplados com adoração.

Obrigada pelas descobertas e pela partilha.

Que dessa sua arca continuem a ser sempre surpreendentes tesouros.

09 maio, 2016 22:11  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Olá, UJM,

Tudo tem um verso e um reverso. A guerra colonial também os teve. Como antigo combatente em Angola que fui (combati a UPA/FNLA no norte), também tive a oportunidade de conhecer um mundo maravilhoso assim. É claro que a guerra era terrível, de maravilhosa não tinha absolutamente nada, mas consegui reservar sempre um cantinho do meu espírito para a contemplação do meio em que tive a obrigação de atuar. Nunca, nem mesmo nos momentos de maior tensão, deixei de me sentir deslumbrado pelas sumptuosas e esmagadoras catedrais verdes em que me movimentei. Eram florestas tropicais húmidas, aparentemente idênticas às que se veem neste filme. É claro que as espécies vegetais e animais eram diferentes, mas as parecenças entre a selva africana que conheci e a selva amazónica que se vê neste filme parecem ser muitas. Assim que encontrei este vídeo, decidi partilhá-lo aqui no blog.

Não há palavras para descrever a densidade absolutamente fenomenal da vegetação, que era sempre pontuada por árvores altíssimas e direitas que nem uns fusos, e dotadas de umas raízes verdadeiramente descomunais. Havia uma espécie de árvore, tão alta e tão direita com as restantes, cujo tronco só começava meio metro acima do solo; este primeiro meio metro era preenchido por gigantescas raízes em forma de patas de aranha, como se fossem de uma aranha mastodôntica, tão grandes que conseguiam manter de pé uma árvore com muitas dezenas de metros de altura. Das árvores pendiam autênticas rendas e cortinas de lianas dispostas em todas as direções, infinitamente mais densas do que as da "selva" dos filmes do Tarzan. Todo o restante espaço das florestas era preenchido por árvores mais pequenas, ainda em crescimento, além de uma quantidade incrível de plantas parasitas agarradas às árvores e às lianas. Não dá para descrever; só visto.

Tal como também se veem neste filme (a partir do momento correspondente a 1 minuto e 14 segundos), viam-se flocos de nevoeiro elevando-se acima das copas das árvores depois de cair uma chuvada. Era um momento mágico, este, de uma suavidade sem par. Dentro da floresta, porém, continuava a "chover" durante mais de uma hora, depois do momento em que a chuva verdadeira tinha deixado de cair do céu. Pingas (muitas pingas e muito grossas), continuavam a cair das árvores e restante vegetação e encharcavam completamente quem não se resguardasse delas.

E as aves? Que plumagens! Que beleza e que riqueza de cores! Mas as aves da floresta tinham um senão: cantavam muito pouco, lançando só uns pios, uns grasnidos e pouco mais. Muitas vezes tive saudades de ouvir o canto de um melro, de um pintassilgo, de um rouxinol ou de outro pássaro europeu. Na floresta tropical húmida quase não se ouve um canto de um pássaro que seja digno de ser chamado canto.

Toda a assombrosa densidade e variedade da floresta tropical húmida é enganadora, isto é, a uma tão grande exuberância vegetal corresponde um solo fértil surpreendentemente fino. O abate de uma floresta deste tipo é para sempre. A floresta nunca mais se regenera. Nunca mais. A partir do momento em que a floresta desaparece, o fino solo fértil que a sustentava é arrastado pelas chuvadas (que nos trópicos são sempre muito violentas, salvo raríssimas exceções) e o que fica só consegue sustentar capim e umas árvores raquíticas. A floresta transforma-se numa savana pobre. Para sempre.

P.S. — Como disse, fui combatente da guerra colonial em Angola. Mas nunca, absolutamente nunca, agi contra os ditames da minha consciência. Um propósito que os meus camaradas de armas e eu próprio assumimos antes de partirmos para a guerra foi: «Havemos de agir sempre de acordo com a nossa consciência, custe o que custar». E repetimos, carregando nas palavras: «CUSTE O QUE CUSTAR!». Cumprimos todos, menos um. Durmo profunda e tranquilamente, sem pesadelos nem sobressaltos. Estou em paz comigo mesmo.

11 maio, 2016 04:00  

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